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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Verdades absolutas sobre basicamente tudo.
All great truths begin as blasphemies.
Nem mais. Porra. 

31 de maio de 2006

Incómodos da Modernidade (IV): No supermercado

Round one

Acontecem coisas estranhas nos supermercados. É assim uma espécie de enclave social, único local onde certas coisas parecem acontecer e fazer sentido. Por exemplo, atracções momentâneas podem desvanecer num ápice. Tenho encontrado raparigas airosas nos corredores dos dois ou três supermercados que frequento. Imagine-se então a rapariga, extremamente jeitosinha, mas, ao mesmo tempo, com uma irresistível aura terra-a-terra. Vemo-la e adoptamos o único comportamento natural e aceitável.
Perseguimo-la. Para ela pensar que, se calhar, temos muito em comum. Afinal de contas, frequentamos os mesmos corredores no supermercado. Só que a rapariga que perseguimos durante quatro corredores, deixa de ser tão apelativa e atraente no preciso momento em que se aproxima da promoção da Renova e decide levar 20 rolos de papel higiénico que, naquela semana, estão a um preço simpático. Lá se vai a magia. Faz-me confusão ver as pessoas a levarem 20 rolos de papel higiénico. Há uma razão para os rolos de papel higiénico estarem sempre num canto recôndito do supermercado. Ninguém quer ser visto a levar papel higiénico. Não sei porquê, nem quando começou, mas sei que é assim. Eu já vi a Alcina Lameiras a comprar papel higiénico. E mesmo eu, indivíduo respeitador do espaço e opções de cada um, não pude deixar de lançar aquele olhar “ah, és famosa… tens jeito para slogans e tudo… mas a verdade é que também… coiso, como toda a gente.”. Parece que, não levando papel higiénico, ficamos num patamar valorativo bem acima de quem leva papel higiénico. Naquele momento, eu senti-me, em todos sentidos, “mais” que a Alcina Lameiras. Eu era superior. Por incrível que pareça, não fui dilacerado por uma possível imagem mental da Alcina Lameiras a usar aquele mesmo papel higiénico que eu a estava a ver comprar. Nada disso. Senti-me apenas muito superior. Confiante. Mais forte. Se, como dizem os peritos, ouvir o “Eye of the Tiger” antes de uma luta nos capacita de 35% de força extra, então, ver alguém comprar papel higiénico, ainda por cima uma celebridade, dá um capital de superioridade sobre a pessoa em causa que deve rondar os 400%. Ou mais.

Mas, como é óbvio, já me vi no lado de lá. Uma vez, ou não fosse eu uma das pessoas mais avarentas a nível mundial, queria aproveitar a promoção, não da Renova, mas de outra qualquer marca do género. Eram, também, uns 20 rolos de papel higiénico, e a apenas 2,5 euros. E, por acaso, até acho que era daquela mariquice de folha dupla e de suavidade extrema. Nem fazia questão que assim fosse. Por menos 50 cêntimos, de bom grado me contentaria com qualquer coisa cuja textura se situasse algures entre uma folha de cartolina e uma lixa. Mas até era daquele caro. Do bom. Dois euros e meio por 20 rolos. Como não aproveitar? Fui lá de propósito. Quando peguei nos 20 rolos é que m’apercebei da tragédia iminente: “Caraças, não posso sair daqui só com 20 rolos de papel higiénico! Tenho que os dissimular entre outras compras. Tentar fazer com que passem despercebidos.” A muito custo, lá comprei duas garrafas de água, uma lasanha congelada e um saco de cebolas. Não resultou. A força visual de 20 rolos de papel higiénico abafou por completo a já de si diminuta decência latente a um conjunto lasanha/par de garrafas d’água/saco de cebolas. Naquele momento, não pude deixar de pensar que parecia alguém que precisava urgentemente de 20 rolos de papel higiénico. Eu não precisava urgentemente. Não estava à rasquinha. Nem coisa que se parecesse. Eu queria apenas aproveitar a promoção. Mas a sociedade é assim. Gosta muito de tirar conclusões precipitadas e julgar as pessoas.


Round two


Não tenho, está visto, truques que me safem dessa Kryptonite que é o papel higiénico nos supermercados. Mas, em compensação, tenho algumas regras que mantêm a minha masculinidade nos píncaros. Primeiro, nunca vou com alguém do mesmo sexo às compras. Eu já vi dois rapazes às compras e sei o que parece. Segundo, nunca uso um carrinho ou, pior, um cestinho para meter as compras. Prefiro fazer malabarismo com as compras nas mãos, apoiadas nos ombros e ao colo, do que levar um cestinho. Não raras vezes fico à rasca dos braços, mas num cestinho é que não pego. Eu bem me lembro do que aconteceu àquele meu vizinho que, aos seis anos, ficou com a bicicleta que era da irmã mais velha. Estava nova, impecável, travava muito bem e até tinha o seu jeito para derrapagens daquelas que levantavam um pó descomunal. Mas tinha também uma cestinha, branca, naquele plástico estúpido a imitar vime. Aquela cestinha na bicicleta deu-lhe cabo da vida. Marcou-o para sempre. Ainda hoje se fala nisso. Nos supermercados, eles bem nos tentam enganar. Dão cores fortes aos cestos. Azul-escuro. Vermelho vivo. Além de formas mais quadradas, tipo tijolo, e pouco redondinhas. Mas não deixam de ser cestinhos. A mim não m’enganam eles. Enquanto não arranjarem uma coisa assim mais ao estilo do saco onde o Rambo levava as metralhadoras e aquele arco que disparava uma flecha bomba que deitava abaixo helicópteros bolcheviques, prefiro carregar as compras.

Levando eu as compras nas mãos, é natural que queira assentar aquilo o mais rápido possível, enfiá-las em sacos de plástico e ir à minha vida. Mas não tenho, nunca tive, sorte com as filas. Aliás, devo ser a única pessoa, em toda a história dos supermercados, a já ter deixado passar duas grávidas à frente numa mesma fila. Duas grávidas, que nem vinham juntas, ficaram atrás de mim, cada uma com um intervalo de, vá lá, minuto e meio. Deixei passar ambas, como mandam as regras de boa educação e não a minha vontade. Mas este tipo de coisas, e valha-lhe isso, não acontece com muita frequência. Bastante mais comum é a situação em que, chegado ao pequeno tapete rolante da caixa, e todo dorido por causa das embalagens que equilibro, apanho, imediatamente à minha frente, uma daquelas criaturas que resolve dispor as suas compras de forma muito organizadinha, como se estivesse num concurso. Em vez de empilhar tudo, optimizando o parco espaço do pequeno tapete rolante, entrosa tudo com pequenos intervalos de cerca de cinco centímetros entre cada item. E por ordem alfabética ou por prazo de validade. Também já vi por cores. Sim senhoras, fica bonito, fica. E eu, pá? Que nem tenho cestinho! Que estou ali, que só Deus sabe, a sofrer! É que, como se não bastasse, é também habitual estas criaturas pegarem naquele separador das compras e postá-lo mesmo no finalzinho do pequeno tapete rolante. Ou seja, aquela área, onde os seus produtos estão harmoniosamente dispostos, é, por decreto, toda sua. Não me deixa uma nesga que seja para eu apinhar duas ou três compras e, enfim, ter logo algum descanso.

Normalmente, este género de gente arruma toda a sua tralha enquanto o cliente imediatamente à frente vai pagar. Aqui, também não costumo ter muito sorte. É sempre a pessoa que quer a factura. Ou a que tem duzentos cupões que dão 2 cêntimos de desconto cada e que têm que passar individualmente por uma coisa qualquer que lê o código de barras. Ou a que, afinal, já não tem dinheiro para levar tudo e manda um enlatado qualquer para trás depois de ter sido registado. E, nesse caso, é preciso chamar uma empregada chefe para meter um código qualquer que anula a compra. E depois acaba o papel dos talões. Ou então é a cliente que, já nas suas sete ou oito décadas de vivências e agruras, parece espantada por ter que pagar as próprias compras. E, só depois de lhe dizerem quanto é, é que vai buscar a carteira. Depois, após uma demorada consulta do saldo disponível, ainda decide que não quer ser ela a pegar no dinheiro e entregá-lo à empregada. Prefere abrir a carteira e dizer “olhe, veja se tenho aí dinheiro que chegue.” Ou ainda alguém que aparece com um iogurte individual, quando só se vendem em embalagens de quatro. E reclama, diz que não viu lá nada a dizer que tinha que trazer as quatro. Que não quer quatro. Só quer uma. Porque é que há-de levar as quatro se só quer uma? Não tem fome para comer quatro! Tem fome para comer um iogurte, não quatro! Está indignada. Parece querer começar, ali mesmo, agora, uma revolução popular contra o supermercado. Iniciar, ali mesmo, a propalada queda do capitalismo.

Por vezes, oiço a cavalaria: “Podem passar para esta caixa pela mesma ordem, se faz favor.” Abriu uma caixa, ali mesmo ao lado. Vou, finalmente, deixar aquele empecilho que, por qualquer razão absurda, demora anos a pagar e este fátuo que assume o básico acto de despejar as compras para cima do pequeno tapete rolante como uma honrosa participação num concurso de jardinagem. Abriu-se uma oportunidade d’ouro. Está quase, é a minha vez. Quase que choro de emoção. Sinto-me o Carlos Lopes no final da maratona de Los Angeles. Só que, claro, é sempre demasiado cedo para euforias. Eu bem penso que estou safo; esquecendo-me, por momentos, que é bem possível que, para os velhos que estão atrás de mim, aquele género de aviso seja processado como sendo qualquer coisa do género “Rápido! A ordem anterior não s’aplica! É uma nova fila! Uma nova fila!”. Vejo-me logo rodeado de velhos. Parecem combinados. Aparecem de todos os lados. Uma seita organizada que se apropria de lugares nas filas dos supermercados. Desoriento-me. Sou completamente manietado por aquela meia dúzia de velhos. Não consigo ficar com lugar privilegiado a que tinha direito na nova fila. E, não esquecer, voltar à fila anterior é assumir que tomei uma opção absolutamente errada quando a deixei. Como muito bem atesta o papel higiénico, o supermercado é pródigo em situações que demonstram fraquezas. E, como não quero dar parte fraca, como não quero baixar a cabeça e voltar à fila que abandonara momentos antes com alívio jocoso, deixo-me ficar na nova fila, no lugar que aquela terceira idade organizada me permite ter. Não lhes dou, à antiga fila, a satisfação de voltar. Não sei se faço bem, se faço mal. Sei é que dali já não saio. E limito-me a rezar que nenhum daqueles indivíduos que, com jogo subterrâneo, me arredou da dianteira da fila, adopte os tais comportamentos que atravancam a fluência da coisa. Mas isso acontece sempre, foda-se.

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19 de maio de 2006

Músicas do Sempre (III)

Quando se fala em grande talentos que não atingiram os patamares mais elevados de reconhecimento, isto é, que não conquistaram os mais importantes troféus das suas áreas, os nomes citados são quase sempre os mesmos. Por exemplo, no futebol, a Hungria de Puskas – inequivocamente o gajo mais bem penteado da história do desporto rei –, a Holanda de Cruyff ou o Brasil de Zico, Sócrates e Falcão – o Trio Odemira das rabias na relva –, são sempre considerados quando se fala em grandes equipas que nada venceram, mas que, apesar disso, ficaram na história e são actualmente até mais lembradas que os próprios colectivos que as derrotaram. Tendo em conta que estamos a falar de títulos de campeão do mundo, e não de troféus Nova Gente, acaba por ser uma bela merda de consolo, mas enfim, é o que se arranja. Virando o jogo para outra área artística, o mundo do cinema também tem as suas Hungrias de Puskas ou Holandas de Cruyff. Por exemplo, o Hitchcock nunca ganhou um Óscar de melhor realizador. O mesmo aconteceu com o Kubrick. E, até ver, com o Altman e com o Scorsese. Ou seja, objectivamente, o Leonel Vieira, essa alma responsável por um filme cujo único mérito foi o de ser capaz de melhorar a imagem dum bairro bastante problemático da capital portuguesa – porque, hoje, Zona J é antes de mais uma deplorável fita e só muito depois um péssimo sítio para se esquecer da chave na ignição enquanto se vai “só ali comprar tabaco” –, está, em termos de vitórias nos Óscares para melhor realizador, no mesmo patamar que todos estes grandes nomes do cinema. E, já todos percebemos, o Leonel Vieira até pode realizar mais vinte ou trinta filmes. Mas nunca será um realizador. Não é justo que, ainda que de forma rebuscada, possa estar num qualquer mesmo patamar que profissionais e talentos a sério.

Ter talento e não ganhar é, então, algo que até acontece amiúde. O grande erro passa sobretudo por, em rigorosas leituras dos vencedores, eventualmente se colocarem os Leóneis Vieiras, que têm tanto talento como o Stevie Wonder tem percepção de profundidade, e as Hungrias de Puskas tudo dentro do mesmo saco. O saco dos que não ganharam. Ora, se me é permitido, gostava de, no saco dos verdadeiros talentos que, sabe-se lá porquê, acabaram por não ganhar, incluir um nome que corre o risco de vir a ser olvidado. Uma manifestação de talento ao nível do pé esquerdo de Puskas ou do “Goodfellas” do Scorsese. E que, inexplicavelmente, perdeu. Nada mais, nada menos, que Jorge Fernando e o estupendo “Umbadá”. Sim, porque se, como li há dias num rodapé da Sky News, “‘Fresh water love’, sung by lady Dina, was the last spark of the Eurovision song contest in Portugal”, então, era justo que um rodapé constante da mesma estação nos lembrasse que “George Ferdinand and his electrifying ‘Onebadá’ got the most unfair outcome of the Eurovision glorious history”. Porque foi isso que se passou. “Umbadá” conseguiu apenas, pasme-se!, o quarto lugar no Festival da Canção de 1985. Fui saber, e não é que o “Umbadá” ficou atrás do Nuno & Henrique, dois pirralhos – sendo que um parecia que a mãe o tinha vestido e penteado de forma a parecer um Richard Clayderman anão – que cantaram uma coisa chamada “Meia de conversa”? Indecoroso. Ficou ainda atrás duma Eduarda que cantou umas lamúrias de camafeu sob o título “Meu amor, minha dor, meu jardim”. E, claro, ficou atrás do grande vencedor da noite, o “Penso em ti, eu sei” de Adelaide Ferreira. Eu até nem tenho nada contra a Adelaide Ferreira. Quer dizer, enerva-me um bocado que todas as gajas gordas que vão a concursos de cantoria, escolham aquela música que tem uma apoteose de “afinal o papel principal é meu e só meu” em gritaria de desequilibrada mental ou em ovulação. Mas nada tenho contra a senhora. Aliás, no café onde eu ia comprar pastilhas quando era assim mais catraio, até ouvi bastantes vezes os presentes a elogiar a traseira da sua Irmã Mila, quando ela apresentava aquele concurso de tunas com o Nuno Graciano.

Mas, de facto, é um absurdo que o “Umbadá” não tenha ganho. E até já o seria se não tivesse ganho com uma margem confortável. Assim, pura e simplesmente, não há palavras. Mesmo admitindo, e eu faço-o, que “Umbadá” não é a canção perfeita! Mas é daquelas canções – aliás, será mesmo a canção, a nível mundial – em que os ouvintes mais querem que o refrão chegue depressa. Não é que o resto seja mau. Não é. Mas aquele “É umbadá, umbadéo-umbadá” é o maior clímax que a canção ligeira foi capaz de dar ao mundo. É que eu, no antigamente, sonhava em guiar o carro grande dos bombeiros. A caminho de um fogo. Com aquelas luzes todas ligadas e a fazer um chinfrim dos diabos. Com as pessoas a olhar, esperançadas na minha força de combate enquanto soldado da paz que guiava o carro grande dos bombeiros. Era como ser o Super-homem, vá. Fazer barulho e ter toda a gente a olhar para nós, sem nos recriminar, enquanto íamos brincar com o fogo, era o sonho de toda a faixa etária 4-10 anos. Era a situação em que mais se imaginava, e citando o Jardel, a naftalina a subir para níveis cósmicos. Infelizmente, não cumpri esse sonho e o desejo foi esmorecendo com os anos. Mas, enquanto foi a coisa que mais queria fazer na vida, aquele refrão afro-pop de Jorge Fernando foi capaz de ir apaziguando esse desejo premente. Ouvir aquele “É umbadá umbadéo-umbadá” foi, durante bastante tempo, e à falta da coisa a sério, o meu “guiar o carro dos bombeiros em alta velocidade, com as luzes todas ligadas e a fazer uma algazarra parva”. É, sem dúvida, o seu equivalente musical. Mais calmo, mais reconfortante. Mas, ao mesmo tempo, estupidamente capaz de passar uma euforia única. Ficou em quatro lugar no Festival da Canção? Ficou. Merecia mais? No mínimo, o céu. C'um raio, vamos mas é todos guiar este carro grande dos bombeiros!

Outras músicas:
Wind of change
Amor d'água fresca

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15 de maio de 2006

O hábito faz o monge















Levo já vários anos a ver televisão. Mais de duas décadas de experiência acumulada nesse ramo do saber. Aproveito até este bocadinho para anunciar ao mundo que no exacto dia em que eu nasci, nascia também a televisão a cores em Portugal. Sim, eu não tive que ir a Espanha para ver como era isso da televisão a cores. Ou isto de ir a Espanha para experimentar coisas que não havia cá, só se fez com a Coca-Cola? Agora que penso nisso, acho que nem tive logo um aparelho capacitado de reproduzir as maravilhas da comunicação a cores. Essa maravilha de, finalmente, poder saber, por exemplo, se o Raul Durão tinha ou não o tom de pele impecavelmente bronzeado que se anunciava por aí. Se tivesse que arriscar, diria que não, não tive logo uma televisão a cores. Mas essa novidade, a da cor, nasceu comigo. E o que sei é que a primeira televisão a cores que me lembro de ter, acabou por perder uma ou outra cor (o verde e o azul, parece-me) após alguns anos de utilização compulsiva. Depois, lá se arranjou um íman lá para casa, que, diziam os entendidos, se colocado durante uns momentos por dia, junto à TV de forma lateral, punha aquilo como novo. Vim a saber que, claro, não passava de mais um mito, assim parecido com aquele das pulseiras idiotas, aquelas douradas e com duas bolinhas, que se dizia curarem o reumatismo; mas que mais não faziam que ser um muito eficaz meio d’identificação de pessoas fáceis de empandeirar por tudo e todos. Se bem me lembro, até cheguei a ouvir que, se o íman não funcionasse, se deveria usar um secador, e, aí sim, as cores perdidas, ou simplesmente esbatidas, não só voltariam, como ainda se haveria de gabar a brutal pujança adquirida. Às vezes, regressavam em vigorosas tonalidades fluorescentes, acrescentavam mesmo alguns.

Fosse como fosse, nunca seria um processo imediato. E, cá por casa, acabou por só se recorrer mesmo às propriedades do íman. Nada de secadores. É que, mesmo durante os anos 80, havia limites para as figuras de parvo que se podia fazer. Além disso, o íman é que era uma coisa fascinante. Poderosa, mas ao mesmo tempo – e como deve ser nestas coisas – bastante enigmática. Eu até pensava que tinha qualquer coisa a ver com o He-man, o dos bonecos, e por isso, a dada altura, cheguei a ponderar a hipótese de, se usasse o íman durante aquelas aventuras de animação, algo cósmico, transcendente e, enfim, porreiro para mim, iria acontecer. Da teoria à prática, tenho a declarar que o máximo que aconteceu foi, minutos depois de usar o íman durante o He-man, ter visto pela primeira vez um homem com um bócio tão grande que mais parecia um gémeo siamês. Mas um daqueles siameses que tinha deixado de crescer para aí aos 12 anos. Já bem crescidote, portanto. Não achei grande espingarda. Estava à espera d’algo que me deixasse, sim, boquiaberto, sim, estupefacto, sim, estarrecido; mas nunca num terreno e básico sentido “chiça, que raio é aquilo que aquele senhor tem debaixo do queixo?”. Sendo certo que, para quem, como eu, ainda só tinha visto uns duplos queixos um tudo-nada mais papudos – e, de certa forma, já com uma certa aura de aberração circense –, um bócio descomunal é algo para, vá lá, ainda assarapantar. Mas esperava assim mais uma coisa como ter acesso a uma dimensão paralela ou ficar com visão raio X. Quem sabe, transformar-me num super-herói, que eu na altura até gostava bastante de usar collants. Mas nada disso. Só a visão duma porcaria dum bócio gigante.















Bem, serve este pequeno intróito, que vou fazer questão que acabe por ficar maior que o que se lhe segue, para dizer que me considero uma inatacável autoridade na matéria “televisão a cores”. Cronologicamente, ela nasceu comigo. E, em todos os anos que levo a ver televisão, já deu para perceber que existem duas entidades profissionais que se apresentam no mundo audiovisual de forma distinta das demais. A saber, os polícias e as altas patentes do exército. E destacam-se pelo simples facto de serem as únicas que, invariavelmente, aparecem na televisão com a roupa de trabalho. Com as fardas, vá.

Sempre que vão aos noticiários, às entrevistas, aos debates, estas duas entidades profissionais parece que têm que figurar fardadas. Não se percebe porquê. Os polícias, por exemplo, que até aparecem bastante, podiam, mesmo dentro do contexto “farda”, ir variando qualquer coisita. Podiam, sei lá, ir como os agentes do teledisco “Sabotage”, dos Beastie Boys. Ou vestirem-se à polícia sinaleiro, com aquela indumentária que até chegou a ilustrar uns sinais de trânsito aqui há uns anos. Com um chapéuzinho à polícia inglês, mas em branco; umas luvas ali já a caminhar para o compridote, também elas brancas; e uma farda num azul bem mais vivo que a indumentária padrão. Parecia de ganga e tudo. E desde quando é que um fato completo de ganga é feio ou parece mal? Vamos lá ver, afinal de contas, a farda desse virtuoso indivíduo que, qual maestro de renome mundial, coordena toda uma orquestra de automobilistas, é tabu quando toca a aparecer na TV, é? Vai um polícia ao “Prós e Contras”, pronto, já se sabe que vai todo equipado, como se aquilo fosse a Rua Sésamo e as pessoas, para não confundirem os mais garotos, se vestissem consoante aquilo que fazem profissionalmente. Um teatrozinho, com roupinhas e tudo. Podia ser assim com todos então. Os médicos iam de bata branca e com o estetoscópio. Os engenheiros civis iam com um capacete amarelo e uma pasta com folhas cheias de gruas e prédios desenhados. O talhante iria com um avental largo, sujo de sangue, e com um cutelo. O terrorista ia de árabe, com aquela touca, a barba e umas barras de dinamite, daquelas vermelhas compridas iguais às dos bonecos. E por aí fora. Quem ligasse a TV a meio do debate, facilmente perceberia quem era o quê. Deve ser esta dinâmica que os polícias e o pessoal do exército querem estabelecer como regra.

Não postergando o pessoal da polícia, os meus preferidos acabam mesmo por ser os generais e os coronéis, esse pessoal das continências e que combinam os duelos. Aparecem sempre com os seus pins, as bandeirinhas, as estrelinhas e até uns aviõezinhos de brincar, tudo preso ali por cima do bolso do casaco. Parecem aqueles miúdos que ganharam uma corrida de corta-mato no sábado e levam a medalha ao pescoço a semana toda para tudo quanto é lado. Os generais, os marechais e os coronéis são assim. Mas não é só durante uma semana. Não se fartam. Este pessoal, para aparecer na TV, produz-se de tal forma que mais parece que vão a enterrar a seguir e não lhes dá jeito ainda ir a casa. Vão directos para o velório. Vestidos de abajur pindérico. Por uma vez, gostava de ver um gajo do exército vestido à civil na TV. A dar opiniões, a matutar, a discutir temas, assuntos, temáticas, matérias, conteúdos, teores. Enfim, coisas. Bem, o Valentim Loureiro, vulgo Major, será a excepção à regra, porque, verdade seja dita, até já de chambre, à porta de casa, o vimos aos gritos em frente às câmaras. Mas o grande problema é que, agora, à pala dessa mania já instituída, as altas patentes do exército correm o risco de, quando quiserem ir assim mais desportivos para um debate, alguém lhes dizer “Você aí de calções de ganga e pólo preto da Macieira é que é o General Costa Guedes? Ponha-se mas é a andar. Quem é que pensa que engana?” e ficar à porta. Ou, quanto muito, até conseguir o tempo d’antena, mas, porque não está vestido como nos habituaram a ver, ninguém acreditar nele. Podem muito bem já ter entrado num ponto sem retorno em relação a estas coisas. E é bem feita. Pronto. Era só isto.

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3 de maio de 2006

Capas que dificilmente serão piores que a música, mas é possível (VI)


Pensava eu, do alto da minha chaneza, que, depois de Richard & Willie e respectiva capa que mostra ao mundo como a imagem de uma senhora a gratificar oralmente, e em simultâneo, um humano bastante pigmentado e duas marionetas estupidamente estereotipadas pode mesmo ser um cenário inquietante, não mais me mostraria alvoroçado com manifestações do tenebroso mundo do ventriloquismo. Afinal, ainda fico. Não é que fique mais alvoroçado. Não. Em abono da verdade, “ficar mais” seria sempre bastante complicado. Para não dizer completamente impossível. Ou, vá lá, tão impossível como, perante uma situação em que alguém está a cantar um fado ou algo que remotamente se assemelhe à mais típica canção lisboeta, não haver pelo menos um atrasado mental que, num misto de empolgamento e certeza de que vai ser admirado por todos, muja “Ah fadista!” uma ou mais vezes. E este até é o grau de impossibilidade mais elevado que conheço. Seja como for, ao que parece, ainda há mesmo capas de disco de ventriloquismo capazes de me colocar em alvoroço. Claro que a própria prática dessa arte que é o ventriloquismo, felizmente com tendência para ser irremediavelmente esquecida, influi muito nesse estado.

Para além da óbvia e inegável dinâmica de parvoíce concomitante a todo e qualquer acto ventríloqua, fazem-me, hoje e sempre, confusão os bonecos. São pavorosos e deixam-nos sempre com o tal desassossego de poderem ou não ganhar vida para, manejando um ralador ou um almofariz, nos atacar num qualquer sítio pouco iluminado. Não percebo porque é que, por exemplo, não usam um anão em vez do boneco horripilante. É que é de uma parvoeira de vantagens tal que chega a ser burlesco o facto de ainda ninguém se ter lembrado disso. Logo para começar, não era preciso o ventríloquo decorar as suas falas e as do boneco. O anão decorava as suas. Os anões falam sozinhos, que eu já vi. Interagem e tudo. Os bonecos não. Depois, aquela coisa de fazer uma voz parva sem sequer abrir a boca, de certeza que não faz bem às cordas vocais dos ventriloquistas. Com o anão a falar, esta questão de saúde nunca se colocaria. Para além disso, e quiçá mais importante que tudo isso, seria uma, não digo considerável, mas no mínimo simpática contribuição para a resolução do eterno problema da empregabilidade dos anões. Sim, porque nem todos podem ser Alf’s ou robots da Guerra das Estrelas. Até o próprio mercado da pornografia com anões tem vindo a sofrer acentuada crise. Ou seja, há para aí muito anão que quer trabalhar e não consegue. Se mandassem os bonecos às urtigas, abria-se a porta para que alguns desses anões pudessem começar a endireitar as suas vidas. Era um novo mundo de oportunidades. E, pronto, não havia boneco e aquele pavor constante. Seria um dueto como qualquer outro. Sem bonecada humanóide e tão normal como uma actuação com um anão ao colo de outra pessoa consegue ser.

Olhando-se para a capa hoje aqui em exibição e científica análise, facilmente se conclui que, ao invés de aproximar o boneco de uma forma mais humana – e um anão é, em rigor, uma forma mais humana que um boneco de madeira ou esferovite –, a Geraldine decidiu antes aproximar a sua forma da do boneco. Devia-lhe dar mais jeito assim. Confesso que, a princípio, tive algumas dificuldades em perceber quem era o ventríloquo nesta capa, se é que havia algum. Não fosse o meu conhecimento académico na arte do ventriloquismo, que rapidamente me chamou a atenção para a disposição das personagens, e esta dúvida acompanhar-me-ia para sempre. Então, o Ricky, mas só porque é ele ao colo da Geraldine, é o boneco. É certo que, a julgar sobretudo pela rígida definição de todo o seu frontispício, a Geraldine terá apanhado boleia com o Ricky naquele teletransportador que "A Mosca" tornou famoso; e agora está, a bem dizer, a metamorfosear-se em algo que se destaca pela aparência pouco humana. Por outras palavras, está numa espécie de avançada, e absolutamente doentia e vomitiva, simbiose com o Ricky. Para este cenário ser ainda mais aterrador, só faltava mesmo ser de noite. Está lá o boneco psicótico que pode ganhar vida a qualquer instante. Está lá a sua maquiavélica mentora que parece, ela própria, feita de cera. Está vestida de noiva e tudo, como se impõe e é costume nestas coisas dos desequilíbrios mentais. Está lá a selva, cerrada e com plantas que têm folhas daquelas que parecem tentáculos. Rechonchudinhos, mas tentáculos. Só se safa mesmo a manta, que eu até tinha uma daquelas quando era mais rapazito e gostava bem dela. Era fofinha.

Presumo que nem deva ser preciso dizer que esta Geraldine é uma acesa devota daquelas Igrejas estranhas. Dos Cristãos Renascidos ou dos Neopentecostais. Uma dessas. Como também se depreenderá, o disco reproduz os animados diálogos entre a senhora e o seu boneco ensandecido. Quando, ao jantar, ouvirem alguém dizer “eh pá, estes muçulmanos são todos malucos” ou “com estes árabes é sempre um ver se te avias”, não se fiquem. Defendam os rapazes. Lembrem-se que, por muito desequilibrada que seja essa vadiagem que pensa que, por se detonar em tudo quando é sítio, vai sacar umas dezenas de virgens lá no céu, ainda ficam muito atrás da malta desta capa. É que, por exemplo, do 11 de Setembro, ainda me posso vir a esquecer. Duvido, mas não garanto que não me esqueça. Agora, deste “Trees Talk Too!”, aposto já peremptoriamente que não. Isto sim, é para sempre. Por último, ainda em relação a tão enigmático título, se as árvores conseguem falar, porque é que não dizem ao Ricky que não se usam calças cor-de-rosa, muito menos com uma camisola azul? Era um começo.

Outras capas:
Heino
Richard & Willie
Freddie Cage
Joyce
John Bult

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