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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Verdades absolutas sobre basicamente tudo.
All great truths begin as blasphemies.
Nem mais. Porra. 

24 de março de 2006

Batmania

Frederic Wertham foi um psiquiatra, e, como é do conhecimento geral, esses indivíduos, para além de manterem viva e de saúde a indústria dos divãs e de ganharem rios de dinheiro apenas a repetir o quesito “E como é que isso o faz sentir?” a angustiados, são gente para gostar muito de teorias e hipóteses. Nos anos 50, este fulano descobriu uma relação causa/efeito entre a leitura de banda desenhada e a adopção de comportamentos que considerava desviantes e imorais. Por exemplo, uma das suas conclusões mais famosas passava pela certeza que o Batman era uma personagem pejada de referências a uma predilecção sexual que, por assim dizer, dá bastante valor a arco-íris, a póneis e a laços. Em tempos conservadores, a acusação era forte e grave, mas, bem vistas as coisas, um fato de lycra ou látex, conforme a época, e uma proximidade nunca explicada com aquele que, a par do Aquaman, é tão somente o comparsa mais andrógino da história da ficção, são factos da vida de Batman que não mentem. E, como ainda está para vir o estereótipo que se enganou, tome-se então como facto adquirido a possibilidade do Homem Morcego se sentir bem melhor na pele de Homem Borboleta.

Mas fala-se no Batman por uma razão muito simples. É que, além de se ter vindo paulatinamente a tornar num ícone para os apreciadores de musicais, o alter-ego de Bruce Wayne tem-se, nos últimos tempos, tornado numa figura bastante querida junto dos pais divorciados. Há ano e meio, foi um indivíduo vestido de Batman a subir a um varandim do Palácio de Buckingham e por lá ficar durante um bom bocado a protestar contra o facto de os pais divorciados não terem o direito de ver os filhos tantas vezes como gostariam. Na altura, era suposto um seu companheiro, disfarçado de Robin, vir logo por trás, dinâmica que, com franqueza, não lhes devia ser nada estranha no dia-a-dia, mas, tal como na ficção, também na realidade o Rapaz Morcego é um mariquinhas pé de salsa. Atrasou-se, foi apanhado, e acabou por ser apenas o Batman a subir e a protestar. E as imagens de um homem adulto vestido de herói de banda desenhada a protestar pelos direitos dos pais divorciados correram mundo. Incrível como o Batman conseguiu reunir as simpatias de pólos que, como se pode ver pela foto do protestante londrino, são tão distintos na sua essência: os homossexuais e os pais divorciados.

O que pouca gente esperava é que essas mesmas imagens servissem de inspiração a alguém que, no nosso país, se via, e ainda vê, diariamente confrontado com o mesmo problema. Pois bem, no último sábado, véspera de “Dia do Pai”, foi organizado um protesto pelos direitos dos pais divorciados e, sobretudo, contra uma proporção em termos de “custódia” que consideram absurda.

E, valha a verdade, se há acção que mostra, inapelável e irremediavelmente, que uma qualquer situação é absurda ou ridícula, essa coisa é exactamente vestir-se de Batman. Junto de um homem feito vestido de Batman, qualquer lei e decisão judicial é absurda. Quanto a isso não há, e nunca houve, discussão.

Foi o que fez Paulo Quintela, fundador e presidente da associação que organizou o protesto, e que, à falta de palácio de Buckingham para trepar, achou que subir o morro descampado que está em frente à delegação da Ordem dos advogados em Lisboa seria acção dotada da mesma carga simbólica. Considera-se um super-pai, tal como considera todos os pais divorciados que lutam por mais tempo de qualidade com os seus descendentes directos. Achando-se um Super-pai, seria de esperar que se disfarçasse de Luís Esparteiro, mas o fato de Batman era mais em conta, tinha melhores abdominais e, afinal, até já havia aquele caso em Inglaterra que tanto deu que falar. Mais especificamente, queixava-se Quintela que uma juíza decidiu que ele, por enquanto, não podia ver o filho, tendo, e cito o queixoso, dito “gentilmente que eu estava maluquinho e que não respeitava as necessidades diárias da criança”. Mais uma vez, para se provar que não se está maluquinho, a melhor coisa é vestir um fato de Batman e, neste caso, subir a um monte descampado empunhando um lençol com umas palavras de ordem pintadas. É bem mais eficaz que pedir um atestado ao médico de família, que é uma chatice e ainda é coisa para dar trabalho.

Na reportagem que vi, Quintela disse ainda que o seu caso era “como o da Joana, mas o meu filho não morreu”. Realmente, é quase a mesma coisa, é. Seguindo essa lógica comparativa onde impera a racionalidade, também podia ter dito que o seu caso era "como o do Holocausto, mas não morreram seis milhões de judeus". Se queria fazer um paralelismo, fizesse um com o caso do Ray Charles, que, pobre coitado, também penou uma vida inteira para ver os filhos e nunca conseguiu.

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17 de março de 2006

Duas Histórias de Violência
















David Hasselhoff e Yanni. Nos tempos mais recentes, estes dois grandes vultos da cultura popular – OS grandes vultos, dirão mesmo alguns especialistas – foram notícia por terem sido confrontados, judicialmente e tudo, com acusações de violência doméstica sobre as respectivas companheiras. Bem, eu podia, qual jornalista armado aos cucos do lugar-comum, dizer antes que “foram notícia pelos piores motivos”, mas isso seria mentira, até porque todos sabemos que o pior que estas duas criaturas fizeram não foi bater em mulheres. Foi bater no mundo. Na humanidade. Na civilização. Nos valores que tudo sustentam. Foi agredir tudo e todos com as suas constantes aparições em tronco nu e os seus “Ao Vivo na Acrópole”, por exemplo e respectivamente. Com as suas camisolas vermelhas de gola alta ou as suas toilettes de camisa de cetim e calças de cabedal, ainda por exemplo, e ainda respectivamente.

Mas, voltando à novidade propriamente dita, parece que David, a atravessar um penoso processo de divórcio, e Yanni, acometido pela fúria relacionada com o facto de os bigodes, em termos de popularidade das pilosidades faciais, ainda serem o parente pobre e não se aproximarem da aceitação social das barbas, das suíças e das, também elas abomináveis, pêras, resolveram, quase sincronizados, espetar uns morteiros na esposa Pamela Bach e na namorada Silvia Barthes, mais uma vez respectivamente, mas, agora, não por exemplo. Para além disso, David ainda vive com o seu problema de alcoolismo, o qual, infelizmente para todos nós, não é um problema em aparecer seminu na TV. Pessoalmente, de bom grado deixaria de comer carne vermelha só para, no início dos anos 90, o problema de alcoolismo do David ter sido trocado por boa dose de fotofobia ou de agorafobia. Ou ébola.

Existirão, portanto, algumas atenuantes, mas o que fica é que David e Yanni, já cinquentões, representaram o cúmulo da ingratidão, porque, afinal de contas, aplicaram umas galhetas em duas mulheres que, por incrível que pareça, até terão aceitado dormir com eles. Se bem que a maior parte das vezes deve ter sido mais numa onde de “Está bem, xiça! Mas pára de cantar o dueto que fizeste com a Laura Branigan, caramba!”. Ou, no caso do Yanni, “Está bem, mas prometes que paras de enumerar coisas em que ganharias ao Vangelis e ao Demis Roussos!” Mas nem tudo é mau. Nem tudo é feio. Eles também já conseguiram coisas boas. Já fizeram coisas bonitas, como diria o Artur Jorge se ainda alguém o entrevistasse para alguma coisa. Por exemplo, em 1995, em mais um caso de “vida imita a ficção”, David Hasselhoff salvou uma criança que se estava a afogar. Claro que, depois da reanimação, cantou a canção das Marés Vivas com bastante sentimento, o que acabou por quase não compensar o regresso à vida por parte do catraio. Conseguiu ainda, a cantarolar, a admiração incondicional da Alemanha, país que, como se sabe, é dotado de um discernimento, bom senso e, há que dizê-lo, extremo bom gosto, sendo que, em qualquer discussão sobre esse tema, nomes como Hitler ou Modern Talking não nos deixam mentir. E, enquanto produtor das Marés Vivas, teve a simpatia de meter a Pamela Anderson a correr em câmara lenta debaixo de um fato de banho molhado. Vamos esquecer que também se pôs a si próprio, e a outros homens, a correr pelas praias, e, nesse sentido, embora não bata o Tommy Lee, merece o sincero agradecimento da humanidade por ter conseguido gravar a Pamela a fazer coisas tão estimulantes.

Quanto ao Yanni, a verdade é que pouco há a seu favor. Para além de ter provado universalmente que um consultor de imagem é mesmo um recurso humano necessário quando se está inserido no mundo artístico, pode-se, com muito boa vontade, destacar o facto do seu nome, que é grego, significar “João com cabelo dourado”. Isto é, quanto muito, Yanni consegue-nos provar que a língua grega é mais um daqueles idiomas em que uma mísera palavra pode significar coisas como “ontem fui à pesca com o meu tio da França e ele aconselhou-me antes as madeixas de prata” e que dão um jeitão no dia-a-dia. Além, claro, de ter servido de modelo preventivo para todos aqueles que, em determinado momento da suas vidas, pensaram que um bigode era aquilo que lhes faltava.

Seja como for, serão sempre argumentos menores em tribunal. O grande trunfo da defesa baseia-se na insanidade das acusadoras. Não se pode levar a sério o depoimento de duas mulheres que aceitaram partilhar leito e intimidades com Yanni e Hasselhoff. Em casos de violência doméstica, duas mulheres que já provaram ser capazes de cometer actos que ultrapassam a demência total, não devem conseguir grande coisa. E, afinal, perguntará sempre a humanidade, chorosa, a Pamela Bach e Silvia Barthes, o que são umas lamparinas ocasionais, para impor o necessário respeito e adoração temente, comparado com aquilo que o mundo tem suportado dos vossos consortes?

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10 de março de 2006

Incómodos da Modernidade (III): No cinema I

É bastante comum, durante uma sessão de cinema, ficar postado ao lado, ou nas imediações, de indivíduos ou entidades que, por razões bem específicas, acabam por desviar a nossa atenção daquilo que se passa no grande ecrã. E, infelizmente, não o fazem da mesma forma que, por exemplo, uma rapariga naturalmente dotada para protagonizar um filme do Russ Meyer, a fazer jogging de t-shirt, debaixo de chuva, e sem amparo de qualquer espécie, nos devia a atenção da condução de um veículo. Nesse caso, estamos perante uma situação de desvio de atenção numa orientação positiva. Na direcção de algo que queremos percepcionar com algum dos nossos sentidos, colocando o que quer que seja que estávamos a fazer antes num patamar muito marginal.

Mas os tais indivíduos nunca desviam a nossa atenção num sentido positivo, mesmo quando o filme em exibição tem, enfim, um índice fecal de tal ordem que, espalhando-se os rolos da película num terreno, e juntando-se-lhe alguma palha e outras ramagens secas, temos garantido um solo duma fertilidade que é uma coisa parva. Bem, mas nunca é num sentido positivo porque o que essa pessoa faz numa sala de cinema não é agradável a nenhum dos sentidos humanos, sendo, quanto muito, indiferente a alguns deles. Mas extremamente irritante ou distractivo para pelo menos um outro.

Ora, um desses indivíduos é aquela pessoa que, corriqueiramente, se apelida de “assobiador nasal”. O “assobiador nasal” é um indivíduo que, por alguma razão, ao fazer circular o ar pelas fossas do seu fungão, expele um som agudo, bastante semelhante a um assobio. Um chichorrobio, vá. Às tantas, até é mais parecido com um silvo. Ou será antes com um zunido? É complicado definir com precisão tão enigmática sensação auditiva. A verdade é que, também conhecidos, nalguns meios, como “panelas de pressão”, estas pessoas, as que produzem o som, são mais comuns do que à partida se poderia pensar. A questão é que, no seu dia-a-dia, conseguem quase sempre passar despercebidas, mas um espaço silencioso acaba quase sempre por ser sinónimo de queda da máscara de qualquer assobiador nasal, revelando-o perante um mundo sem pachorra para assobios de uma regularidade dilacerante e ritmo rigorosamente compassado. É possível que estas pessoas nem se apercebam que o fazem. Mas isso pouco importa. As pessoas que dizem “sófá” também não devem fazer de propósito e não é por isso que temos que, ou vamos, gostar delas.

Por experiência própria, conheço duas formas de o assobiador nasal conseguir fazer alguém perder um filme, ou simplesmente impedir a pessoa de o acompanhar como seria expectável e desejável pela própria. A primeira forma é o simples facto de um som daqueles ser profundamente irritante. Como uma torneira a pingar, uma melga ou uma música do Kenny G. A segunda está relacionada com o facto de, dependendo de uma série de factores, o processamento que o cérebro do indivíduo receptor faz do som levar o mesmo a entrar num estado de hipnose, um em que o seu único objectivo imediato é descobrir que raio de música é aquela. Por outras palavras, funciona, então, como uma espécie de canto da sereia, dando a sensação que é, de facto, um ritmo nada estranho e, desse modo, criando a angustiante sensação de “já ouvi isto em algum lado e não descanso enquanto não souber o que é”. Em vez de fazer aquilo para que foi ao cinema, vai passar duas horas profundamente obcecado com aquele som e com a perspectiva do mesmo representar uma qualquer sonância musical que lhe é familiar. Como é óbvio, é uma perda de tempo, porque o som não é nenhuma melodia reconhecível, mas sim uma criatura que assobia pelo nariz. Além do mais, evitá-los é complicadíssimo. A maior parte das vezes, só darão conta que estão perto dum quando já começou o filme e aquele som nasal vos chega ao ouvido, interferindo com o vosso entendimento da narrativa cinematográfica em causa. E, bem, nesse preciso momento, o filme acabou de vos perder.

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7 de março de 2006

Óscares











Melhor filme: Crash. A grande - maior que o vestido da Queen Latifah - surpresa da noite foi mesmo o Crash. Nunca, em toda a história da humanidade, se pôs a hipótese de um filme com o Tony Danza ganhar o Óscar mais importante da academia. Dizem as más-línguas que os cowboys do Brokeback não se poderiam levantar para ir ao palco, e, vai daí, a academia decidiu passar o Óscar para o seu segundo favorito.

Melhor música: “It’s hard out here for a pimp”. Uma música mais que sofrível mas que prova que o medo de ser assaltado no beberete pós-festa pelo grupo que a cantava pode mesmo influenciar muitas cabeças. Outro dos artistas nomeados, Dolly Parton, também optou pela táctica do medo, mas, apesar da actuação fantasmagórica, acabou mesmo por perder. Todos percebemos que o que a Dolly sempre poupou em implantes mamários, lá foi gastando em plásticas que, basicamente, a tornaram em algo que se assemelha a um boneco de ventríloquo. Mas com umas mamas descomunais.

Melhor Guarda-Roupa: Ganhou o “Memórias de uma gueixa”. Mas isso pouco importa. Este Óscar é gay. Este e o da maquilhagem. Ganhar um destes Óscares é como receber um prémio por ter os pompons mais giros lá da tropa. Ninguém quer isto para nada.

Melhor actriz e melhor actriz secundária: Não foi um ano particularmente famoso, mas três. Sem fazer grandes fretes, dormiria com três nomeadas para actriz principal e três nomeadas para actriz secundária. Acho que nunca me tinha acontecido um empate.

Melhor actor: Já há uns tempos que não ganhava um gordo e, este ano, o Seymour Hoffman acabou mesmo por sair vencedor. Este facto foi particularmente lixado para os cowboys do Brokeback Mountain. Afinal, para ganhar um Óscar, não é preciso andar a acariciar homens, quando, ainda por cima, se tinham mil hipóteses de escape sexual a pastar ali mesmo à mão. Para ganhar o Óscar, bastava simplesmente falar fininho. É viver e aprender, rapazes.

Melhor argumento original: Foi pena não ter ganho o Match Point. Esfumaram-se as hipóteses de vermos a Scarlett Johansson em toda a sua jovial volúpia. Para quem não a viu nos Globos d’Ouro, ficam apenas a saber que a moça deu um novo sentido ao título desses, também eles prestigiados, prémios. Dois Globos d’Ouro já ninguém lhe tira. Quer dizer, só tiver um acidente ou assim.

Outras considerações: Chego da latrina e Lauren Bacall apresentava não sei o quê. Incrível como, cada vez mais, a senhora não precisará de qualquer tipo de maquilhagem num novo remake do Planeta dos Macacos. O vestido da Charlize Theron tinha um atavio qualquer no ombro que quase nos conseguia desviar o olhar do seu módico, mas extremamente simpático, peito. Quase. Ainda assim, o ornamento era francamente distractivo. Graças a Deus que, pouco depois, chegou a Salma Hayek para nos voltarmos a focar no que realmente interessa nesta vida. O Jack Nicholson continua a viver na primeira fila do Kodak Center e a cabeça do John Travolta está quase maior que o buraco onde está a sua carreira. Já agora, deviam ter tirado os Óscares àqueles gajos que levaram uns pinguins de peluche para o palco. Devem pensar que, como ganharam, já não vão parecer ridículos com aquilo no beberete e no táxi para casa. Podem-se juntar àquele casal salada de frutas que até tinham uns lacinhos para os seus Óscares. A mulher do Ang Lee, se tivesse um smoking, podia ter ido receber o óscar por ele e ninguém perceberia. A transmissão da TVI foi, como de costume, o melhor da noite. Sempre que não estavam a falar, os dois rapazes encarregues dos comentários estavam a mexer em papéis de uma forma hiperactiva. E nem se ouvia nem nada. E aquele sussurrar do nome do George Clooney no pequeno silêncio que medeia a expressão “and the Oscar goes to…” e o momento em que se anuncia o vencedor? Nunca tinha ouvido alguém sussurrar o nome do George Clooney. Nem sei o que pense acerca disso. Referência final para o “In Memoriam”, a homenagem a todo o pessoal dos filmes que já não está entre nós. Morreu o Mr. Miyagi do “Karate Kid”. Bem, então, à partida, estamos safos de mais uma sequela daquilo. Mas é melhor não festejar já. Que nisto do cinema nunca se sabe.

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2 de março de 2006

Incómodos da Modernidade (II): As velhotas missionárias



















Apesar de ter sido um parolo que empinava papagaios em noites de intensa trovoada, Benjamin Franklin era também um visionário. Disse o senhor, aqui há coisa de uma carrada d’anos, que só existiam duas certezas na vida; sendo elas o termo da existência e o pagar impostos até que este suceda. É verdade que o Benjamin também chegou a constatar que estava no auge da senilidade e a dizer desconchavos como “quem tem cabeça de cera não se deve passear ao sol”, mas o bitaite sobre as certezas na vida tem qualquer coisa de factual. Ter-se-á esquecido de uma outra certeza, tão ou mais autêntica que as referidas: o ser abordado por um velha que nos quer dar um panfleto com rezas e imagens de santos. São as velhas do “Jovem, posso-lhe oferecer uma coisa?” e representam igrejas menores no panorama religioso, quase sempre com nomes cinematográficos como “O Caminho de Jesus” ou contendo subtis ameaças como “O que Deus quer mesmo” e “Ai de ti que não prestes culto assim que depois Jesus conta-tas”.

Mais dia, menos dia, isto calha a todos. E o problema destes panfletos é o facto de ninguém ter coragem de os mandar fora. Porque pode “fazer mal”. “Dar azar”. Porque, sempre que alguém o fez, sempre que alguém reencaminha aquele papel no seu curso natural de convivência com outros detritos da mais variada espécie e feitio, a vida começa-lhe a correr mal. Ou melhor, sempre que alguma coisa corre mal, a pessoa lembra-se do papel religioso que atirou fora com o desprezo e sobranceria que caracterizam o homem bajulador da ciência. Subconscientemente, a pessoa sabe sempre que maltratou um recado de forças que o ultrapassam em larga escala e, perante o mais pequeno infortúnio, lembra-se disse mesmo e pragueja, num tom pré-choro que se aproxima perigosamente do estridente, “Fosca-se, para que é que eu mandei aquilo fora, porra?”. Acaba por ser essencialmente uma questão psicológica. Mas nem por isso menos chata.

Uma vez na posse do papel, não há volta a dar. Há que manter aquilo eternamente ou passá-lo, ao papel e a todo o drama que o acompanha, a outra pessoa. Sendo assim, o truque ideal seria livrar-se logo das velhas, impedindo-se que o papel consiga fazer o seu trabalho sujo. O problema é que é complicado livrar-se dessas velhas. Ao longo dos anos, desenvolvi a capacidade de as identificar a largas centenas de metros, o que, por incrível que pareça, só serviu para ver aumentado o tempo de sofrimento. É angustiante saber que vamos ser abordados com um “Jovem, posso-lhe oferecer uma coisa?” e não ser capaz de o evitar. Durante uns tempos, o meu truque foi adoptar o tradicional ar e andar “porra, pá, ‘tou cá c'uma pressa!”. Isto é, apressar o passo e, bufando constantemente, olhar para o relógio. É assim que se vê que as pessoas estão com pressa. Mas, para o efeito, está táctica não prima pela eficácia. O caraça das carcaças, não sei bem como, conseguem encurralar as presas com um apuro absurdo. Parecem leopardos à caça de antílopes. Embora seja tudo muito devagar – tão lento que sou capaz de jurar que se ouve o “Chariots of Fire” do Vangelis de fundo –, é complicadíssimo evitar uma destas velhotas sem ouvir a angustiante questão.

É verdade que, em princípio, bastaria dizer “não, obrigado!” à velhota e abalar. Mas não é assim tão simples. Estamos a falar de velhotas simpáticas e apessoadas, parecidas com a septuagenária do “Crime, disse ela…”, e não de senhoras que cheiram a coelhos mortos e para quem a padeira de Aljubarrota perderia facilmente o título de Miss Tísica. A essas é fácil dar uma cotovelada ou um rotativo e fugir dali para fora sem remorso algum. Agora, responder negativamente a uma velhota que, em termos de jovialidade e afabilidade, encosta a avó da Neoblanc a um canto, e que, atenção!, fala sempre num tom “estou às portas da morte e este é o meu último pedido”, é uma coisa completamente diferente. Dizer "não" é difícil, mas aceitar a porra do papel é entrar numa aflição considerável. Então, o que raio fazer? A minha opinião é que, não se conseguindo fugir à portadora do papel, o ideal mesmo é imaginar que ela nos pede outra coisa qualquer. Por exemplo, imaginar que ela nos pede autorização para explorar a nossa uretra com a sua fiel agulha de tricotar. Nesse caso, sim, é fácil espetar com um rotundo “não” na idosa, embora a automática justificação “que isso é coisa para infectar” as possa deixar confusas. E é mesmo isso que se quer. Depois, é só aproveitar o assarapantamento momentâneo da missionária, esquivar-se e correr que nem um louco, de preferência imaginando que a terra engole o chão mesmo atrás de nós.

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