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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Verdades absolutas sobre basicamente tudo.
All great truths begin as blasphemies.
Nem mais. Porra. 

23 de junho de 2006

Vai-te fechando, Sésamo















Acima dos vinte e poucos anos, não há quem não se lembre da Rua Sésamo. Faz parte do nosso imaginário colectivo e essas coisas assim. Será, tal como milhentas outras séries, uma daquelas coisas que marcou a infância de muito boa gente. Mas, e aqui é que a porca torce o rabo, o feito de marcar a infância de alguém não é automaticamente sinónimo de qualidade e gabarito. Por exemplo, quer-me parecer que os cintos de fivela também marcaram a infância de muita gente, e se sair agora uma edição especial de cintos de fivela não é provável que um considerável magote de sujeitos vá a correr comprar aquilo. Nem há gente que, com um brilho nos olhos e voz nostálgica ou, por outra, com um entusiasmo aparvalhado, ande para aí a relembrar os cintos de fivela em conversas intermináveis. E isso acontece por uma razão muito simples. Os cintos de fivela lembram sovas, coças e surras. Coisas más. Também deixava marca, mas era daquelas que doíam. Infelizmente, a Rua Sésamo, em muitos dos seus aspectos, marcou da mesma forma que um cinto de fivela. Doía. E, por isso, deixou marca. Marcou infâncias, portanto.

Nunca fui grande fã de interacções humanos/bonecos. Haverá, como em tudo nesta vida, excepções, mas, à partida, não é coisa que me faça lamber os beiços ou dançar sapateado apetrechado de um chapéu de feltro e uma bengala daquelas só para o estilo. Ou é com bonecos ou com pessoas. Já bastava quando metiam aquelas histórias horríveis sobre pessoas a sério nos livros do Tio Patinhas. Na Rua Sésamo, isso dos humanos na paródia com bonecos era costumeiro. No rol das chamadas “pessoas”, tínhamos por exemplo o André e a Guiomar que, juntos, protagonizaram a relação de vai-não-vai com menos tensão sexual de que tenho memória. Ele, André, interpretado por um Vítor Norte ainda longe de sucessos esmagadores como “Cluedo” ou “Esquadra de Polícia”, mas já com aquela cara de “eu quero é deboche a toda a hora e em todo o lado, mas queria ter na mesma qualquer coisa de Luís Miguel Cintra para não parecer que estou é sempre a pensar em cowboyadas”. Ela, Alexandra Lencastre, novinha, e, inexplicavelmente, sempre enfarpelada com grossas e largueironas camisas de flanela, para além dos inconvenientes livros e pastas que transportava sempre junto ao peito. Ora, até ver, Alexandra Lencastre é sinónimo de mamas. Se, por qualquer camisa de flanela largueirona e monte de cadernos, não há qualquer vestígio de mamas, não vale a pena haver Alexandre Lencastre. Se era para isso, punham uma actriz a sério, uma daquelas que diz que a sua grande paixão é fazer teatro experimental daquele só com choradeira, berros e pessoas feias em pelota.

Foi, por isso, por não ter qualquer memória das mamas da Alexandra Lencastre na Rua Sésamo, que estranhei quando o Fernando Lopes, o realizador que, na altura, era produtor da série, disse numa entrevista que, certo dia, tinha chamado a Xana ao seu gabinete para lhe passar a seguinte novidade, e passo a citar de cabeça: “Alexandra, não te posso ter mais aqui. Não quero ter os putos todos a masturbarem-se por tua causa”. Não me parece que fosse um problema assim tão real ou frequente. Não há, por exemplo, comparação possível entre a Alexandra Lencastre da Rua Sésamo e a Alexandra Lencastre do genérico da “Ana e os sete”. É a eterna diferença entre uma camisa de flanela grossa e um varão de clube de strip. Seja como for, já todos sabemos o que o Fernando Lopes fazia durante e/ou logo após a Rua Sésamo. Também já sabemos como é que o Fernando Lopes interpretava os primeiros versos da canção de abertura da Rua Sésamo que, relembro, consistia num até aqui puro e virginal “vem brincar, traz um amigo teu”. E, sim senhoras, aqui fica uma bela imagem mental. Daquelas reconfortantes, para adormecer.

Ora bem, chateavam-me os humanos numa série de bonecos. E chateavam-me alguns bonecos ou algumas coisas de alguns bonecos. O Egas e o Becas tinham demasiado tempo d’antena. Junto com eles, o seu hábito de tomar banho juntos e lutar constantemente pelo usufruto de um patinho de borracha de cor amarelo deslavado. Além disso, Becas é nome de mulher, que eu bem sei. É diminutivo de Rebeca ou qualquer coisa assim. Porque é que não se chamavam Egas e Rui, por exemplo? A sonoridade era menor, mas, caramba, Rui sempre é nome de homem. Becas não. Depois, o Ferrão metia um bocado de medo. Vivia num lagar, mas nunca o víamos pisar uvas, e parecia um daqueles desperdícios de oficina ensopados em mousse de chocolate ou, quem sabe, até cocó. Mas, uma coisa é certa, de entre muita porcaria que deixou marca de cinto de fivela, a Rua Sésamo também tinha coisas boas e com a sua graça. E quem nunca chateava ninguém era o Monstro das Bolachas. Era um gajo unânime. Daí que, quando aqui há tempos se disse que na versão americana o descontrolado mostrengo iria dosear a sua eterna avidez de biscoitos e até começar a comer espargos e sopa de nabiças, muita gente tenha ficado estarrecida. Roubavam a essência, a alma, a uma das grandes personagens da Rua Sésamo. Aparentemente, alguém achou que o Monstro das Bolachas não dava um bom exemplo para as crianças e poderia estar a contribuir para o aumento dos casos de obesidade infantil. É óbvio que é chato haver muitos gordos de tenra idade. Ninguém quer que grasse por aí uma epidemia de gordos. Ainda criam um exército revoltado e depois é uma chatice, sobretudo porque eles são lentos mas aguentam muitos murros, como o Zangief do Street Fighter. Percebe-se então o problema. A proporção de gordos necessária a qualquer sociedade saudável é de um para quatro putos normais. Em cinco putos, um pode, e deve, ser gordo. Para ir à baliza. E o problema, na América, é que já se estão a atingir números alarmantes: em cada três crianças, uma é gorda. Isto significar que, nos Estados Unidos, é mesmo bastante provável que uma equipa de cinco miúdos tenha dois gordos. Dois guarda-redes. Uma tragédia. Era, está visto, urgente intervir.

Mas o cu nada tem a ver com as calças. E, antes de mais, deviam era agrafar às virilhas os testículos do gajo que encontrou uma relação entre ver o Monstro das Bolachas a enfardar e decidir começar a embuchar à maluca. Estas absurdas correspondências sempre me fizeram confusão. O exemplo mais comum é a da violência na televisão que provoca violência juvenil nas ruas. Com que então, há demasiada violência na TV e isso, ora bem, é que torna os jovens mais violentos? Faz perfeito sentido, faz. Mas, se assim é, tem que funcionar em todas as suas abrangências. E, vá lá ver, também há demasiado Manuel Luís Goucha na televisão, e, que se saiba, não é por isso que há para aí ranchos de adolescentes com fatos de cetim cor-de-rosa e camisas de seda com cores claras e leves a aterrorizar as ruas armados em galináceos. Com o Monstro das Bolachas passa-se o mesmo. Além de que, como toda a gente sabe, ele nem come as bolachas. Parte-as todas e faz um estardalhaço do caraças, mas não come nem uma. Os gordos que imitem o Monstro na perfeição e deixa logo de haver problema. Se não emagrecerem por não chegar a comer as bolachas, emagrecem a limpar o chão que ficou cheio de migalhas, que sempre é exercício físico. A questão central aqui passa por tornar claro que o velhinho Monstro das Bolachas nunca foi, nem será, um mau exemplo. Por amor de Deus, na Rua Sésamo até um vampiro para lá têm. Um que conta muito bem até dez, é certo, mas um vampiro. Os vampiros sorvem sangue. Mas, aparentemente, desde que não engorde, não há problema.

Na versão Sul-Africana, aconteceu uma coisa do género. Por lá, como se sabe, não há muitos putos morfologicamente perfeitos para ir à baliza, mas há outros problemas a aterrorizar a população. E, há pouco tempo, decidiram introduzir uma nova personagem: Kami, um boneco que tem sida e que mostra a todos como a condição de seropositivo não deve ser nenhum estigma. Tudo isto será, porventura, um bocado confuso. Não se pode comer bolachas, mas pode-se ter sida? Então agora os miúdos já não vão todos querer imitar a Kami e desatar para aí a apanhar sida em tudo quanto é canto? Coerência é o mínimo que se pode exigir ao moldador de carácter que a Rua Sésamo diz ser. Enfim, independentemente disso, e nada tendo contra a Kami, à partida também não sou apologista da introdução de novas personagens em séries já cimentadas e com uma considerável e fiel base de fãs. Se tinha mesmo que ser, deviam ter aproveitado para aplicar os novos conceitos às personagens já existentes. E, já que nos tiraram o Monstro das Bolachas como sempre o conhecemos e admirámos, ao menos enfiassem com a sida no Poupas, por exemplo. Um Poupas com sida era um Poupas mais suportável. Era um Poupas com a esperança de vida que sempre mereceu.

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16 de junho de 2006

O corpo desumano















O corpo humano é uma coisa fascinante, defende um dos mais sólidos e imemoriais chavões. Há mesmo quem diga que será a derradeira e inequívoca prova que Deus existe. A criação divina por excelência. Uma máquina portentosa onde duodeno, jejuno, sigmóide, epitélio supercial, cécum e exócrino, entre outros belos nomes para dar a um filho, coabitam e laboram, e onde se verificam ocorrências como gastroenteroanastomoses, vascularizações hepáticas ou anastomoses dos ramos jejunais. É um sentimento bonito, o fascínio. Infelizmente, e por muito factual que seja, essa adjectivação – fascinante – não se poderá nunca estender a todo o corpo humano. Ou, pelo menos, não se estenderá num sentido totalmente positivo, de coisa racional ou que, enfim, acabe por dar jeito a alguém. Por exemplo, o corpo humano é um sítio onde, se não se tiver cautela, pode acontecer um corrimento mucoso ou mucopurulento pela uretra. Este é o mais comum sintoma da doença provocada pelo gonococo, esse biltre, que não tem outro nome. E mucopurulento quer dizer que tem muco e pus. Ao mesmo tempo. Com que então, fascinante, hã? Uma pila a pingar mucopurulências que, leio agora, podem assumir cores tão variadas e galhofeiras como o amarelado, o esverdeado ou mesmo uma tonalidade parecida com a da clara do ovo? Sim, até encerrará algum fascínio, mas sempre num sentido nauseante. Como ver um cão a comer o interior de uma fralda. O Tom Cruise a comer a placenta da filha. Ouvir, demasiado perto, uma daquelas pessoas que tem os cantos da boca sempre cobertos com uma espuma branca. Imaginar a Teresa Guilherme a desovar enquanto come chispes de coentrada empapados em mel e pasta de sapateira. Tudo isto também fascina, e a gente até olha, mas só porque mete nojo.

Espurcícias à parte, muitas coisas há no normal funcionamento do corpo humano que não fazem sentido nenhum. E uma das coisas que me chateia a sério assume contornos mais que absurdos. Indo directo ao assunto: porque é que raio o corpo humano permite que se espirre quando se está, como dizer, a mijar? Isto não cabe na cabeça de ninguém. Porque é que o corpo humano, se é tão perfeito, divino e, lá está, fascinante, consente esta absurda ocorrência? Quando nos apercebemos que está para acontecer, bem, é das piores sensações que se pode ter, se não a pior. Barbaramente aflitivo, tomamos consciência que, afinal, somos de facto muito pequeninos e que nada temos sob controlo. A situação é simples e fácil de contextualizar. Sabemos que estamos a direccionar um jacto de urina para o local adequado. Concentrados, preocupados em nem pingar as bordas da sanita e, às vezes, sem sequer fazer pontaria ao desinfectante WC Pato. Tudo corre bem. Mas eis que surge a sensação única. Caraças, quer-me parecer que vem lá um espirro! Olha, vem mesmo! Eu vou espirrar! E eu ainda nem vou a meio disto, pá! Não vou conseguir acabar a tempo! Vai haver simultaneidade! Vai haver concomitância de acções de despejo que não têm qualquer tipo relação entre si a não ser a circunstância de, vá lá ver, serem ambos actos evacuatórios! São uns segundos do mais tormentoso que pode haver. Se bem que isto, que eu saiba, se aplica exclusivamente aos homens. Melhor: a homens que mijam em pé. Sim, porque há muitos homens que não mijam em pé. Deficientes e assim. Convém ainda clarificar, porque muita gente não sabe isto, que direccionar a urina pode parecer uma tarefa mais fácil do que realmente é. Não é, confesso, nada de extraordinário, se, claro, nos cingirmos àquelas alturas em que o órgão expelente está numa dinâmica mais amorfa. Defensiva, vá. Porque se, por mero acaso, se estiver a falar do acto mictório enquanto o órgão encarregue de expelir a urina está em posições de ataque, a conversa será sempre completamente diferente. Nessas situações, não há domínio perfeito possível. É um ver se te avias. É como uma daqueles mangueiras dos bombeiros que fica descontrolada. Só dá mesmo para tentar minorar os estragos o mais possível. Mais que isso será sempre um esforço inglório.

Seja como for, dizia eu, a ocorrência de um espirro enquanto se urina é um fenómeno angustiante e aflitivo para quem mija em pé. Sentado, este problema não se coloca. Essencialmente porque espirrar enquanto se mija é sinónimo de uma salganhada do caneco. Significa que perdemos sentido posicional e direccional. Não há hipótese de, durante aquele mísero segundo, durante o curtíssimo espaço de tempo que demora um espirro, a pila não se tornar - também aqui, embora de forma muito mais intensa e rápida - na tal mangueira dos bombeiros que fica descontrolada ou num daqueles aparelhos de rega dos jardins. Um espirro durante tão corriqueiro acto é como se, de repente, nos víssemos num rodeo, a tentar, do alto de um daqueles touros que estão sempre muito aborrecidos com qualquer coisa, acertar com o esguicho num balde. Como se depreenderá, “acertar” deixa de ser opção. Passa a ser uma completa utopia. Se isto não fosse já suficiente, o espirro é também um fenómeno que tem o condão de nos obrigar, sempre, a fechar os olhos. Ou seja, ainda por cima, esfuma-se logo aí qualquer hipótese de saber, nem que fosse assim por alto, para onde raio foi o mijo desgovernado. Como não sei para onde foi, por norma acabo por estabelecer um perímetro de verificação; isto é, uma zona que perscruto no sentido de encontrar poças desconexas ou mesmo simples pingos. De, convém não esquecer do que se está aqui a tratar, mijoca. A zona deliberada, não sendo rigorosa e adaptando-se sempre à envolvente em questão, deve andar pelo metro e meio para os lados e cerca de 90 cm para a frente (chão e, se for caso disso, paredes). É nesta zona que procuro e é esta zona que limpo. Sim, ignoro por completo tecto e retaguarda e posso orgulhosamente dizer que nunca me dei mal. E por falar em orgulho, eu, valha-me Deus, nem sou um daqueles que espirra compulsivamente, que não consegue só espirrar uma vez. Daqueles a quem vêm sempre uma dezena de espirros, em cadeia, tipo rajada de metralhadora. Esses, quer dizer, se calhar até têm que tomar banho quando isto lhes acontece enquanto mijam. Eu, até ver, ainda só tenho que limpar as zonas afectadas da casa de banho. Enfim, espirros enquanto mijo são sempre acontecimento que acabam por remeter para o dia em que tive a infeliz ideia de despachar a micção enquanto lavava os dentes. Foi a pior maneira de descobrir que, mesmo inconscientemente, o meu corpo tinha tendência para seguir os movimentos da escova.

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8 de junho de 2006

Na ocidental praia lusitana II












No seguimento da última comunicação deste pardieiro, aqui ficam, sem nenhuma ordem em particular, as cinco pessoas para quem o princípio da autuação à beira-mar deveria ter sido criado.

Pessoas que metem um emaranhado de algas e lixo na cabeça e fazem air guitar

Não sei se o conceito que sustenta a prática do air guitar é próximo a toda a gente, mas aviso já quem nunca teve o infortúnio de apanhar alguém a fazer isto, que o melhor é deixar de ler agora mesmo e ir à sua vida, se é que tem uma. Por seu turno, quem quiser prosseguir, pode fazê-lo, mas a partir deste momento fica por sua própria conta e risco. Pois bem, air guitar, e vou dar a definição científica da coisa e tudo, é o “acto de fingir que se toca guitarra, imaginando que se tem o instrumento nas mãos, e desenvolvendo um exageradíssimo movimento de dedilhação, frequentemente acompanhada de cantoria em altos berros ou sincronização labial com uma qualquer canção, e/ou movimentos violentos de cabeça para baixo e para cima”. Ora, esta coisa do air guitar, por si só, é já, com muito boa vontade, estupidamente parva, mas consegue ganhar uma nova magnitude quando é perpetuada por um indivíduo que a desenvolve como complemento perfeito para o acto de enfiar com um monte algáceo na cabeça. Como é lógico, estes dois actos conjuntos, já deviam, quando isolados, dar direito a umas lamparinas bem encanadas naquelas fuças. Mas juntos merecem uma coisa mais próxima de, sei lá, uma pequena guilhotina para usar nos mindinhos dos pés. Sim, coisa leve, porque também não sou nenhuma besta sádica que para aqui anda.

Pessoas que empinam papagaios

Sim senhoras, empinar papagaios. Não é que, com tanto avanço tecnológico, não há maneira de se acabar com isto? Trata-se de um homem, crescido, que agarra por um fio de pesca um papagaio. Não é a ave, é de brincar. Parece que o papagaio é o seu animal de estimação e ele o está a passear, recorrendo-se da trela para que não fuja. Como se faz com os cães mais histéricos. É que, ainda por cima, este pessoal dos papagaios é quase sempre um pai a ensinar aquela milenar arte aos seus filhos. Como se fosse uma arte perdida, que se passa de geração em geração em segredo. Mas empinar papagaios é tão uma arte como dizer o nome inteiro com um arroto sem beber Coca-Cola é uma arte. É claro que o miúdo está sempre fascinado a olhar para o pai que empina papagaios. O pai é mágico! Um feiticeiro! O meu pai consegue fazer voar coisas, pensa o pirralho maravilhado. Eu também consigo parecer super poderoso à frente de um catraio. Basta-me ter uma caneta e fazer aquela coisa de a abanar para cima e para baixo até parecer que é agora, graças aos meus poderes, é um objecto super maleável. A verdade é que nunca empinei papagaios. Mas já vi disso vezes suficientes. Aliás, vezes de mais. E, ora bem, o papagaio é que está a voar. Quanto muito, é ele que se diverte. O gajo que empina limita-se a ver um bocado de plástico a planar. Eu, aqui ao pé de casa, já vi sacos de plástico do Intermarché e até bocados de esferovite a pairar, lá bem no alto. Não me senti minimamente maravilhado. Assim, onde é que está a emoção disto? É um desporto, uma prova de destreza? Então como é que se perde a empinar um papagaio? Como é que se ganha? É só metê-lo lá em cima, a levitar? A satisfação advém desse simples acontecimento? É que meter um bocado de papel ou plástico de forma poligonal a voar num terreno aberto debaixo duma ventania diabólica não me parece mesmo grande avaria. Aquilo cai, levanta e paira quando o vento quer. Empinem uma farinheira ou uns torresmos do redanho, mas é. Isso, sim, já me parece complicado.

Pessoas que vão à água apenas e só para mijar

Calma. Eu sei que, infelizmente, todas, ou quase todas as pessoas mijam na água. Toda a gente sabe. Isto é um facto. E toda a gente gosta de pensar que, por ser no mar, que é uma coisa assim até grande e com espaço, não há mal nenhum. Mas há, claro. É mijo. Sim, é verdade que, exceptuando o quentinho momentâneo, o mijo até acaba por passar despercebido na imensidão do oceano. Dilui-se. Claro que dilui, não duvido. E uma gota de urina na panela da sopa? Também se deve diluir. Não querem brincar a isso também? Aliás, se a lógica é essa, a de que, passando despercebido, se pode fazer porque não há mal nenhum, então que tal defecar num daqueles lagos onde se tomam banhos de lama, hã? Também devia ser jeitoso. Mas o que me faz confusão é quando se percebe que foram à água só para mijar. Pelo menos tenham a atenção de não se perceber que acabaram de ir mijar. Se eu não percebo que alguém está a mijar, é como se ninguém, alguma vez, tivesse mijado na água onde me estou a banhar. Não me passa pela cabeça e consigo-me divertir e abstrair do facto que ando a beber urina. Mas se percebo que mijaram, pronto, está o dia estragado. Porque é que vão lá de propósito? Porque é que não aguentam até irem tomar banho? Porque é que entram até a água lhes chegar à barriga, ficam quietos durante uns segundos, e vão logo embora, nitidamente mais aliviados? Toda a gente percebe! Fiquem mais um bocadinho. Disfarcem a micção. Mergulhem, andem, apanhem pedras, mexam na água, lavem o balde do vosso filho. Alguma coisa. É que até já vi senhoras a adoptar a posição fecal, ou seja, mijando ali, com a água pelo peito ou lá perto, como se estivessem em casa ou no mais recôndito matagal. Baixam-se, como se se estivessem a ambientar à água. Ficam assim uns segundos. E pumbas! Levantam-se e vão-se embora. Não se estava a ambientar à água! Foi só mijar! E essa gente deve pensar que não reparo que vão mijar a uma ponta e tomar banho noutra. Os patifes.

Pessoas com um detector de metais à procura de coisas com valor

Mas quem é esta gente? Estão a brincar ao Indiana Jones e esperam encontrar o Santo Graal enterrado ali na praia de Carcavelos a uns míseros centímetros de profundidade? Além da parvoeira que é andar na praia com um instrumento que parece um aspirador e só encontra latas, garfos, pilhas e dentes chumbados, estas pessoas parece que têm um uniforme específico. São sempre representantes da classe etária que a ciência define como “carcaças”, ou que para lá caminham, e que ostentam um panamá, sandálias, meias grossas de cor escura, calções ou corsários de napa, um pólo, uma luva de meio dedo na mão que empunha o instrumento de detecção e uma daquelas bolsas de usar à cintura. E depois parece que estão em trabalho e que aquilo é uma ciência. Sim, eles gostam de dar a entender que não é só andar com uma vara metálica à espera que se oiça um apito para poderem começar a desenterrar lixo. Como se não bastasse, ainda estão sempre mal encarados porque as pessoas, com as suas trouxas, toalhas e corpos, estão a ocupar locais onde potencialmente estará o lixo que eles querem desenterrar. Para mim, estes gajos dos detectores de metais nas praias não passam do equivalente daqueles esfarrapados que metem a mão em tudo o que possa ter trocos perdidos, como os telefones públicos ou as máquinas de bilhetes do metro. Só tenho pena que as fraldas, os pensos higiénicos e os pensos rápidos não tenham um qualquer composto metálico que faça soar o alarme daquela parvoeira detectora. Talvez a fralda de um puto com uma dieta rica em mercúrio ou potássio dê para isso. O que eu adorava vê-los, esperançosos como nunca, a escavar um buraco para encontrar um tesouro do género. Porque sei, por experiência própria, o que custa quando estou refestelado a remexer a areia com alguns dedos do pé – quase sempre o grande e o outro ao lado – e depois encontro algo que, descubro pouco depois, é um penso rápido. Seria gratificante vê-los escavar uma porcaria dessas com as próprias mãos. Vou é começar a meter um cêntimo em todas as fraldas que encontro e depois enterrá-las ao acaso na praia.

Pais que fazem questão que os filhos andem nus

Não consigo perceber a utilidade desta opção. Até percebo que seja complicado manter algumas crianças com restrições, mas a roupa é – ninguém contestará – uma restrição quando assume a forma de um laço ao pescoço ou um colete, por exemplo. Uns calções de banho dificilmente o serão. Mas, pronto, hão-de haver por aí crianças que reagem a qualquer peça de vestuário como um cão como quando lhe vestimos uma camisola. Mas a esmagadora maioria não se importa de manter os calções. São os pais que lhes tiram, que eu bem vejo. E depois, normalmente até os deixam nus, mas com o boné na cabeça. Por causa do sol. Ou seja, são filhos de pais que até se preocupam, mas depois os deixam andar nus como se fossem selvagens. A aproximar-se das toalhas das outras pessoas, nus. Andam a correr atrás de caroços, nus. Caiem na areia com a boca aberta, nus. Choram, gritam, berram, cantam, saltam. Nus. Esta coisa dos miúdos nus na praia precisa mesmo de enquadramento legal. Se querem mesmo continuar com isso, se, tal como os touradas ou a assunção que margarina é a mesma coisa que manteiga, faz parte da tradição portuguesa, ao menos estipulem uma idade limite. No máximo, até entrarem para a escola. Pessoas que já sabem ler qualquer coisa não deviam andar nuas na praia. Mas, atenção, isto não significa que quem ainda não sabe ler devia poder andar nu na praia. Deus nos livre, ainda por cima num país com 10% de analfabetos. A verdade é que crianças nuas na praia podem dar azo a sustos ou situações incómodas. Já se encontraram na situação de acordar e, ainda meio a dormir, sem saber onde raio estão, dar de caras com duas crianças nuas perto da vossa toalha? É coisa para causar um enfarte do miocárdio ou de outro amigo dele, caraças. É impossível as palavras “eia, c’um caralho, o que eu bebi a noite passada!” não atravessarem aflitivamente a vossa mente. Depois lá se percebe que estão na praia e não na companhia de duas crianças nuas num qualquer quarto refundido de pensão com uma câmara de vídeo, lenços de papel e legos. No mínimo, era um susto evitável. Pior que estes pais, só mesmo aqueles que levam os filhos à água quando ainda usam fraldas. Não sei se estão familiarizados com a acção da água numa fralda, mas a tendência é para aquilo, depois do primeiro contacto, se soltar tudo num período muito reduzido de tempo. É certo e sabido que, nos próximos momentos, vai haver uma fralda a boiar no mar ou a enfeitar o areal. Se ficar na areia, não tarda estão dois putos aos pontapés naquilo. Nus.

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6 de junho de 2006

Na ocidental praia lusitana











A época balnear abriu no primeiro dia deste mês. A novidade este ano é que, eventualmente, lá hão-de aparecer os tais agentes da polícia marítima e com eles as propaladas novas leis que vão reger o comportamento dos veraneantes. Logo para começar, deve ser lixado para os gajos da Polícia Marítima que, em pouco tempo, passam, pelo menos de forma mais visível, de indivíduos que operavam em alto mar, à procura de traficantes de droga, cargueiros de tráfico humano e navios de piratas bérberes, para indivíduos que passam multas a quem for tomar banho quando não podia. Depois, é triste quando o mundo chega a um ponto em que é preciso punir monetariamente as pessoas para as impedir que, de tão estúpidas que são, se matem sozinhas. Foi por isso que, por exemplo, aqui há não sei quanto tempo, se começou a multar quem não usa capacete. O capacete passou a ser obrigatório porque, basicamente, havia muita gente que o dispensava e depois abria a cabeça. E às vezes até morria e assim essas coisas graves. Para muita gente, essa gente, parece que não houve evolução entre a infância e a idade adulta. Quando somos miúdos é que os nossos pais, fartos de nos dizer para não metermos um garfo nas tomadas, nos castigam com a privação de coisas. Gelados, chocolates, brinquedos e visionamento de bonecos, basicamente. Porque quando somos pequenos, a expressão “olha que isso faz-te mal” não faz sentido nenhum. Não se consegue processar essa informação. Para as pessoas que preferem andar sem capacete, a polícia acaba por ser um equivalente dos pais. Fartos de lhes dizer para não andarem sem capacete que ainda se aleijam, resolveram começar a cortar-lhe a mesada sempre que os vissem sem a protecção oval para a cabeça. A essência da multa é esta mesmo: “se és tão estúpido para perceber que o capacete é para o teu bem, começas a ficar sem dinheiro sempre que te apanharmos nesses propósitos nada seguros”. Para, assim, a associação entre “fazer isto” – sendo “isto” uma estupidez qualquer – e “acontecer aquilo” – sendo “aquilo” algo que o indivíduo facilmente percepciona como negativo – ser mais visível, mais imediata e palpável. É como aquelas experiências em que dão choques eléctricos aos macacos para eles aprenderem a fazer as coisas como deve ser. Pessoalmente, nada tenho contra esta forma de controlo e educação. Embora ache que a punição daqueles espécimes bem específicos que, quando andam de motorizada, não usam capacete mas tomam a absurda opção de o levar no braço, devesse ser bem mais pesada. Talvez qualquer coisa que envolvesse picaretas e rótulas ou qualquer outro osso relacionado com articulações. Ou que envolvesse uma faca serrilhada. Em vez das picaretas, claro. O mesmo se aplica àqueles que, também não levando capacete, levam um palito no canto da boca. E, aproveitando o balanço, àqueles que usam o acto de andar de mota sem capacete como um substituto funcional do secador.

A lógica que sustenta as multas nas praias é idêntica. Há pessoas para quem um maremoto não é impeditivo de uma nadadura e uns mergulhos. Há pessoas que até acham que a digestão é uma coisa que não existe, que não passa de um mito criado para, mantendo a populaça temente, servir sabe-se lá quem. Aliás, quando dizem a alguns banhistas, directa ou directamente, que não se pode ir, é quando eles querem ir mesmo. E este é um comportamento bastante comum em fedelhos. Eu, por exemplo, nunca na vida quis pôr um saco de plástico na cabeça, até ao dia em que vi na TV que não se podia fazer isso porque era perigoso. Estas pessoas querem apenas fazer aquilo que lhes dizem que não podem fazer. Vai daí, e porque uma bandeira de cor rosada e um idiota em calções a apitar e a dizer adeus não andava a funcionar por aí além, foi preciso aplicar outra vez os cortes na mesada. As multas. Mais uma vez, nada contra. É o tal o princípio do capacete. Mas, e já que vai haver fiscalização punitiva para actividades que se desenrolam em praias, já que se vai aplicar esse princípio, acho que as prioridades deviam focar outras ocorrências. Outras que, mais que o usufruto cuidado e seguro do mar, urgem de punição da grossa. São cinco acções de praia que, a meu ver, merecem correctivos para quem as pratica. E, atenção, nestas cinco, estou a deixar passar, entre muitas outras, as pessoas que pensam que caroços ou pauzinhos de Perna de Pau, sendo matérias naturais, não é lixo; pessoas que vão tomar banho literalmente para cima de desconhecidos; pessoas que fazem questão de passar no meio de um jogo de raquetes quando podiam muito bem passar ao lado; pessoas que passam um dia inteiro a imitar o barulho de focas e/ou gaivotas; pessoas que têm pára-ventos gigantes de fabrico artesanal e que mais parecem muralhas; pessoas que enterram mal o chapéu-de-sol e, após uma rabanada mais vigorosa, essa armação de varetas, pano e uma haste central com uma extremidade pontiaguda, sai disparada às cambalhotas pela praia fora, podendo muito cegar alguém ou perfurar-lhe o baço; pessoas que levam cães, incentivam a que se banhem, e depois ainda os deixam sacudir-se violentamente em cima de outras pessoas; pessoas feias e homens que no regresso da ida ao banho – ensopadas portanto – passam demasiado perto da minha toalha e acabam por deixar cair pingos seus em cima de mim; pessoas que comem dentro de água; pessoas que tratam todo e qualquer grão de areia como se fossem formigas a atacar os rissóis que estão a comer num piquenique; pessoas que tocam viola, especialmente se for a “Dunas”, ou djambé; pessoas que comem coisas com cheiros intensos; pessoas que gritam; pessoas que entram na água a correr e defendem, com unhas e dentes, que “assim é melhor”; ou pessoas que pensam que nadar e chapinhar são sinónimos para todo o comum mortal e não apenas para elas. Sim, para provar que não se trata de má fé, estou a deixar toda esta canalha de fora. Não é que a gentalha citada não mereça bordoada jurídica. Claro que merece. Mas há, ainda e infelizmente, quem mereça mais. E já! Ora então, na próxima edição, as cinco acções que, a meu ver, claro, mais carecem de punição legal. Ou punição por meio de milícia popular armada exclusivamente para o efeito. Essas excelsas entidades que a História tem provado serem dotadas, não só de um apurado sentido prático, mas sobretudo de enorme discernimento.

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2 de junho de 2006

"Sim, ‘tá bem, mas você é preto..."

Reportagem televisiva. Entrevistas de rua à chegada da selecção ao Luxemburgo. Entre algumas dezenas de pessoas, um indivíduo, o único PALOP assim mais pardo na pequena turba de entusiastas, sorridente por ter sido positivamente discriminado e estar a falar para uma câmara de TV, diz qualquer coisa como: “Gosto da equipa de Portugal. Eu sou guineense, mas vim aqui apoiar Portugal.” O jornalista, naquele tom de voz absurdamente paternalista, como aliás é habitual na maior parte das entrevistas de rua, atira: “Ah, não veio aqui agoirar Portugal para Angola ganhar no Mundial…”. O indivíduo pardo d'ainda agorinha mesmo resiste: “Eu sou guineense… pois, e vim aqui ver Portugal…”.

Entrevistar emigrantes chega a ser uma arte. E não é Noé Monteiro quem quer. É Noé Monteiro quem pode.

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