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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Verdades absolutas sobre basicamente tudo.
All great truths begin as blasphemies.
Nem mais. Porra. 

8 de janeiro de 2005

Fuja, ou morra a tentar

O governo norte-americano tem um site dedicado à segurança nacional. Como seria de esperar, com muito pouco interesse. No entanto, há uma secção deveras entusiasmante: aquela dedicada aos ataques terroristas, onde, entre outras coisas, os americanos podem ficar a saber como proceder no caso da nave mãe ser atacada. Levei apenas em consideração as figuras que lá estão e ignorei a explicação escrita (até porque estava em estrangeiro). E, porra, em caso de pânico, ninguém se vai pôr a ler coisas. Vão é ver o que os bonecos lhes dizem para fazer. Pode parecer que nos dão indicações ridículas, mas o cumprimento exaustivo de todos estes procedimentos significa muitas vezes a diferença entre a vida e a morte. Bem, pelas ilustrações, o que fiquei a saber foi o seguinte:

Em caso de ataque biológico:








- Compre a colecção “O Corpo Humano” para saber mais sobre si. O primeiro fascículo tem um preço de lançamento porreiro. Aproveite e cancele a sua assinatura das colecções “Táxis do Mundo” e "Moínhos de Café".









2 º - Nunca mais se refira às cidades norte-americanas pelo nome. Use apenas letras isoladas para confundir os terroristas. Além disso, como consequência do ataque, as fronteiras interestaduais do país irão, progressiva e rapidamente, assumir a forma de linhas rectas.









- Aproveite que o mundo vai acabar e compre uma televisão, um telefone e um rádio. Tudo topo de gama e naquela modalidade em que só começa a pagar passados uns meses.









- Se entrar na sua cozinha e deparar com uma lata de laca gigante, pare e reflicta durante uns minutos sobre a possibilidade do pó vermelho dela proveniente ser uma substância nociva para a sua saúde americana. Como é óbvio, não respire durante este período. Assim, além de não inalar substâncias possivelmente prejudiciais, impedirá a entrada de oxigénio no cérebro, o que o levará com certeza a tomar a decisão certa.









- Sempre depois da ponderada reflexão, e no caso da substância em questão ser tóxica, fuja na direcção oposta ao local onde se encontra a lata de laca. De preferência, quando ela começar a levitar. No caso de estar confuso, olhe para a seta que está perto dos seus pés e siga-a. Ela indica o caminho certo e contrário à ameaça enlatada.









- Em seguida, vista a sua burka. A lata de laca mortal detesta a América e a liberdade. Disfarçado de cidadã do médio-oriente, você não corre qualquer perigo. Se possível, tente adoptar um olhar psicopata, vazio de sentimento, para conseguir uma prestação mais sólida e consistente. A lata não é parva nenhuma e topa uma interpretação sem vontade e empenho.









- Tal como antes de comer, lave sempre as mãos após um ataque terrorista. É de bom-tom. Depois, telefone para casa de alguém e desligue quando atenderem. Repita esta última acção incesantemente durante várias semanas, de preferência de madrugada. De quando em vez, ranja os dentes quando a outra pessoa atender.









- Volte à sua vida normal e passe os dias seguintes a jogar computador, a ver televisão e a ouvir música. Nos seus aparelhos novos, claro. Repare que é de vital importância fazê-lo sob a vigilância atenta de três relógios de parede com um minuto de diferença entre si.









- Finalmente, chegou a altura de parar de telefonar para casa do pobre coitado que andou a atormentar com telefonemas às tantas. Se fez tudo bem, você está salvo. E nem foi preciso tomar banho.


Se, por outro lado, lhes calhar um ataque químico:








1º - Os odores libertados pelo vinho tinto, pelo sumo de laranja e pelo caldo verde são, quando juntos, altamente nocivos para o cidadão americano. Os terroristas sabem disto e podem muito bem usar esta mistura em prol da sua luta contra a liberdade e o progresso.








2º - Se tiver o azar de sentir esta terrível mistura, tenha bom senso e estrangule-se. Desta forma, evitará o contágio de milhões de americanos como você. Se estiver hesitante em relação ao seu estrangulamento auto-infligido, lembre-se!, você deve pelo menos isso à América, seu ingrato.








3º - Se por acaso conseguir escapar aos gases (ou sobreviver ao seu auto-estrangulamento), não coma três peixes e um pássaro durante uns dias.








4º - Observe o que não comeu. Verá que a comida estava contaminada, até porque está quase do seu tamanho. O virús (repare que é o mesmo da lata de laca) acabará por abandonar o corpo dos carapaus que deixou no chão da sala. Além disso, o pássaro, apesar de morto, estará a levitar, o que é sempre suspeito. Por último, uma espécie de espírito (com a forma de água a ir pela sanita abaixo quando puxamos o autoclismo) estará também presente.








5º - Agora, o virús da lata de laca gigante e dos carapaus mutantes (e do pássaro) irá persegui-lo. Saia calmamente da sala. Já sabe, se estiver confuso, siga a seta de neón vermelho que entretanto apareceu do nada.








6º - Por esta altura você já deve ter conseguido despistar o virús. Desça as escadas. Se não tiver umas escadas para descer, você morreu. Nesse caso, cante o hino enquanto é aniquilado por este virús fundamentalista islâmico. Terá uma morte digna.








7º - Vá a um centro comercial e admire durante longas horas aqueles mapas que mostram exactamente onde você está. Se se aborrecer durante este processo, divirta-se a saber, por exemplo, quantos palmos vão da Zara à Worten.








8º - Em princípio, você está salvo. Tire uns dias (por sua conta) e vá ao Portugal dos Pequeninos para descontrair. Por esta altura, você e a seta vermelha deverão ser melhores amigos.

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