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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Verdades absolutas sobre basicamente tudo.
All great truths begin as blasphemies.
Nem mais. Porra. 

30 de abril de 2004

Lost in Translation

A erudição futebolística de Gabriel Alves é unanimemente reconhecida. No último jogo da selecção, contra a Suécia, El Gabi (como é conhecido em Porto Rico, onde tem uma vasta legião de adeptos que, em vez da música da Macarena, ouvem os seus comentários numa mescla com ritmos calientes) esteve ao seu nível e, ao ouvir a forma como ele consegue explanar toda a sua sapiência, lembrei-me de uma das suas pérolas, uma das muitas com que tive o prazer de ser brindado. Estávamos em meados dos anos 90. Domingo ou Sábado à tarde, espaço de resumos do campeonato inglês, na RTP2 (ou Nova 2, TV2, uma coisa assim, eles estão sempre a mudar). Jogo: Arsenal contra uns gajos azuis. Ian Wright marca uns dois ou três golos. Após os festejos de um desses golos, temos um plano de uma tarja dos adeptos do Arsenal (ou dos Gunners como diria Alves com um brilhozinho nos olhos). A tarja dizia: “Ian Wright – The Legend”. Gabriel Alves exulta. Solta um dos seus emblemáticos “ohhhhhhhhhhhh” em agudo crescente. Acto contínuo, resolve elucidar-nos com os seus conhecimentos de british english: “Cá estão os adeptos ingleses a celebrar o futebol: Ian Wright, a LEGENDA”! "

Dado estatístico que não interessa a ninguém: Ian Wright marcou 238 golos em 457 golos pelo Arsenal. Tem uma média de 0.521 golos por partida. Ou seja, é preciso uma boa pontaria para se tornar numa legenda do futebol inglês.

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28 de abril de 2004

Custava muito, era?

Algumas das angústias que atormentam muitos homens nas casas de banho públicas (pelos menos os que seguiram os desígnios divinos e gostam de mulheres!) são relativamente conhecidas. Logo à partida, o problema clássico de todos os homens reside no facto de a distância inter-urinóis ser manifestamente curta. Em certa medida, esta realidade está directamente relacionado com o facto de muitos dos arquitectos serem pessoas sensíveis e interessadas em arte (ou seja, são gays), e, como tal, ignorarem as fobias do homem comum e orquestrarem os WC’s públicos com os urinóis juntinhos como siameses. Neste caso concreto, o problema até é de fácil resolução e qualquer mente bem intencionada (ou heterossexualmente intencionada) consegue perceber que uma zona de segurança de, no mínimo, um urinol serve para, se não para dissipar completamente, pelo menos para amenizar este tipo de problemas. Mas mesmo um WC vazio não é sinónimo de despreocupação. Outras questões se levantam quando, por exemplo, nos lembramos das pessoas que utilizaram as instalações antes de nós. Ontem, ao ouvir que usar a maçaneta interior dos WC’s não constituiria nenhuma tarefa hercúlea se todos lavassem as mãos, lembrei-me de um facto que, embora possua a mesma natureza problemática, é ligeiramente diferente.

Falo do acto de puxar o autoclismo numa casa de banho pública. Este procedimento, à partida tão banal e mecânico, traz consigo implicações que são impossíveis de ignorar. Abrir a porta ainda é como o outro. Um gajo de boa fé assume que todos os utentes do espaço lavaram as mãos, e, deste modo, não tem problemas em açambarcar a maçaneta e sair dali para fora o quanto antes. Agora, toda a gente sabe que, no espaço de tempo que decorre entre o fim do acto fisiológico e o acto de pressionar o botão do autoclismo, ninguém vai ao lavatório desinfectar as mãos, caraças! Não façam de nós parvos! Ora, trocado por miúdos, quer isto dizer que, antes de nós, montes de gajos tiveram as respectivas pilas nas mãos durante alguns segundos e pouco depois tocaram naquele botão.

Tudo isto se resolvia se os cultos arquitectos se lembrassem de usar aquele “sistema de pé” que os lavatórios de alguns WC’s públicos têm. Aliás, esta ideia do pé é absolutamente genial, uma vez que o princípio que se aplica ao botão do autoclismo se vai aplicar também às torneiras dos lavatórios. Ou seja, ninguém tem as mãos limpas quando toca nas torneiras para as abrir. Felizmente, alguém se lembrou disso e inventou o “sistema de pé”! Mas só para os lavatórios? Cabe na cabeça de alguém que se esqueçam de aplicar uma coisa destas aos autoclismos? Logo os autoclismos que estão indubitavelmente mais perto de sofrer contágios quase directos?

É óbvio que os autoclismos deviam ser assim. Um gajo usava o pé e aquilo funcionava. Era tão simples. Mas acredito que uma mente sexualmente orientada para outro tipo de viagens, se possa esquecer de tão importante pormenor. Mas não tenho que concordar. E, até que se decidam a generalizar o “sistema de pé” aos autoclismos, eu não cumpro o dever cívico de carregar no botão ou dar uso ao puxador. Pelo menos com a mão. Confesso que o tenho vindo a fazer com o pé, mas sujeito-me a cair, dada altura do botão que acciona o jacto de água (estes gajos não facilitam a vida a ninguém!). Bem, se caio no chão de uma casa de banho pública, é mesmo o fim. Só me resta o suicídio. Espero que pensem nisto, entidades competentes. O espaço público deve ser funcional e, sinceramente, levantar a perna mais de um metro de modo a que o nosso pé accione um instrumento medieval que ainda por cima nos vai salpicar as calças entre as pernas, não me parece muito prático!

Dado Estatístico irrelevante: a palavra autoclismo foi utilizada 8 vezes neste post (esta nota inclusive).

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25 de abril de 2004

Hã?

O que raio é um Luso-Português? Ainda só vi a expressão aplicada a duas pessoas. Ao Sam Mendes e ao Deco. Segundo o 24 Horas, e passo a citar mais ou menos de cabeça, o “Sam Mendes, realizador Luso-Português, e a actriz Kate Winslet foram pais de uma menina”. Já numa peça sobre a Selecção Nacional, a jornalista da SIC Notícias refere-se a Deco como “o jogador Luso-Português”. Parece ser uma categoria especial a que só alguns têm direito. Haverá mais algum “Luso-Português” no mundo? Assim de repente, e correndo o risco de cometer algum sacrilégio, eu apostava num nome. Roberto Leal.

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Penso, logo existo...

É certo e sabido que os discursos futebolísticos não primam pela originalidade. Parece existir um conjunto de declarações-tipo que qualquer interveniente no mundo da bola (dirigentes não contam porque são adeptos com tempo de antena) tem que debitar quando confrontado pelos jornalistas, sendo que o único factor de variação das mesmas é a unidade temporal em que se produzem. Ora, se nos abstrairmos de todo o circo extra-jogo propriamente dito (euforia benfiquista de pré-época, contratações, etc.), essas unidades temporais conhecem, regra geral, seis dimensões distintas: “Antes do jogo”, “Depois do jogo”, “Depois do jogo que perdemos”,“ Depois do jogo que ganhámos”, “Depois do jogo que perdemos porque o Bruno Paixão é uma besta”, e, finalmente, o “Depois do jogo que perdemos e que provavelmente foi o meu último como treinador” (o que era mesmo giro era ter os equivalentes em Latim destas expressões). Isto pode ir variando um bocadinho conforme as vicissitudes do próprio jogo, mas podem-se destacar estas seis dimensões sem fugir muito à verdade. Assim, consoante a altura em que se produzem as declarações, o orador deverá seguir os trâmites normais do discurso futebolístico clássico. E, José Mourinho e robots que ele manda para as conferências de imprensa à parte, é isto que acontece.

O medo de proferir uma qualquer declaração que possa ser entendida como provocação ou presunção aterroriza qualquer treinador ou jogador, e os efeitos práticos de tal fobia repercutem-se nos seus discursos de forma inegável. Por exemplo, o treinador de futebol nunca tem certezas absolutas sobre nada. Usa sempre o verbo “penso” (que transmite sempre alguma incerteza. Penso eu) para exprimir as suas opiniões. Se diz um “penso que fomos melhores nos primeiros vinte minutos”, tudo bem, uma vez que ter sido o melhor durante determinado período de tempo pode sempre ser discutível, e ele, verdade seja dita, está a transmitir uma opinião que sabe poder ser alvo de contestação. Agora, “penso que marcámos dois golos” e “penso que se ganharmos todos os jogos, somos campeões” parece-me algo descabido.

Lembrei-me disto porque, caso não tenham percebido pelos directos da Avenida dos Aliados (sempre com a versão alternativa do SLB, SLB, SLB de fundo e com emplastro a demonstrar que os seus dotes de omnipresença estão em grande), o Porto ganhou o campeonato. E há lá melhor altura para observar na sua plenitude a regra futebolística do “penso”. Por exemplo, o Maniche não sabe se está feliz com o facto de ter sido campeão. O Maniche “pensa” que está muito feliz.

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24 de abril de 2004

Ah é? Então toma lá um "Obrigada"!

Desde quando é que é suposto agradecer a alguém que acabou de nos insultar? Pelos vistos, e desde que estreou “Um Sonho de Mulher” na SIC, parece-se querer generalizar um conceito inovador na secular interacção “insulto-resposta a insulto”. Na prática, o programa é um novo “Ídolos”, mas agora com gajas que, salvo raras excepções, não se enxergam (se o fizessem, tinham noção do ridículo que é concorrerem a Miss Portugal) , em vez dos cantores que, regra geral, não se ouviam cantar (porque se se ouvissem, sabiam que aquilo podia dar apedrejamento público). O Júri tem tudo para perceber daquilo. Tirando uma das mulheres (que até é bastante aprazível), o dito é composto por pessoas medonhas, ou seja, bastante precisas quando se trata de identificar o mínimo de beleza, uma vez que precisam apenas de procurar o oposto daquilo que elas mesmos são. Mas o que me faz confusão é o facto das concorrentes agradecerem os insultos com que são metralhadas. Reparem como se processa este novo tipo de interacção:

Manuel Serrão (ou o outro gajo que parece o Capitão Roby) – “Ah, quer dizer...és gorda! Precisas de emagrecer pelo menos 18 quilos!

Candidata (uma gorda que, embora precise de emagrecer 18 quilos, não se devia ficar com comentários desta natureza) “Obrigada.

Outra gaja do Júri (parecida com a Maria do Céu Guerra, mas com cabelo à Professor Herrero) “Nem te vou dizer nada...sinceramente, nem sei bem o que vieste aqui fazer! Além de gorda, és feia e pareces-me muito convencida.

Candidata – “Obrigada.

Os diálogos sucedem-se, mas, a qualquer comentário menos favorável (Tens os joelhos encardidos! Tens a pele estragada! Tens um queixo enorme! És hedionda! Não gosto de ti! És uma pessoa horrível! És nojenta e não mereces nada na vida!), as candidatas reagem sempre da mesma maneira: com um tímido “Obrigada!”. E às vezes sorriem! Depois do filme “Adão e Eva” ter ensinado como se devem processar estas coisas (com o celebérrimo “vai à merda”/”vai tu” de Quim d’Almeida e Maria de Medeiros), eis que aparece um programa de televisão que ameaça colocar todo o sistema em causa.

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16 de abril de 2004

A Luta Continua...

Vasco Granja é um nome sobejamente conhecido de todos, ou não fosse ele o homem que dava a cara pelos desenhos animados checoslovacos e húngaros (quase sempre mudos e taciturnos) que aparentemente nos ensinavam a, entre outras coisas, abrir latas de atum (ou era de sardinhas?) sem nos decapitarmos e a não meter sacos de plástico na cabeça dos nossos irmãos mais novos. Também se devem lembrar que, após cada animação (normalmente, eram bonecos feitos de plasticina, palitos ou celofane), o avô Vasco explicava-nos exaustivamente que o que tínhamos acabado de ver não era, por exemplo, apenas um miúdo a brincar com um pião partido e uma galinha sem cabeça num celeiro vazio, mas sim uma metáfora demonstrativa dos males que a má distribuição da riqueza acarreta para a humanidade.

Só que a minha geração (e todos nos devemos penitenciar por tamanha afronta) não soube dar o devido valor ao empenhado Vasco e às suas interpretações do cinema de Leste, e, após algumas queixas do género “queremos ver mais bonecos do Bugs Bunny em vez dos do menino no celeiro com uma pala de pirata no olho”, o programa (lembrei-me do nome...era o Cinema de Animação) acabou por ser cancelado. Consequência directa (ou quase), passámos a ter que aturar o Lecas a fingir que tinha a nossa idade, mas, em contrapartida, e em abono da verdade, com películas bem mais populares entre a criançada. Quanto ao Vasco, passou a coordenar todo o departamento infanto-juvenil da RTP e, basicamente, era ele que seleccionava as novas séries animadas que o Lecas iria apresentar, desde que estas não fossem manifestos políticos dissimulados. Se pensam que o VG se ficou, enganam-se, porque a vingança foi servida de forma sublime e saiu pior a emenda que o soneto à déspota RTP. E assim, em vez de aturarmos desenhos animados com personagens que eram sombras e vivam em quintas (sim, os desenhos animados passavam-se todos em ambiente rural), passámos a comer séries modernas e dinâmicas às colheradas. Só que estas tinham mensagens políticas ainda mais claras, e todas na mesma linha das que VG celebrizou no seu Cinema de Animação.

Podemos começar pelos Estrunfes. Eram originários da Bélgica (um país bem visto aos olhos dos administradores da RTP) e ninguém desconfiou. Mas atentem bem nas premissas que sustentam toda a série de Peyo (amigo do peito de Vasco Granja e camarada de lutas partidárias). Ora estes simpáticos bonecos azuis eram claramente um pretexto para elevar os valores de comunidade, companheirismo e equidade social entre todos os homens. Havia sustento para todos, dividiam a riqueza (que era, única e exclusivamente, de natureza alimentar...não havia cá luxos supérfluos) e cada estrunfe tinha uma função definida, exactamente aquela que desempenhasse melhor e que fosse mais proveitosa para a comunidade em geral. Além disso, todos os estrunfes machos andavam em tronco nu (que eu me lembre, só a estrunfina tinha um vestido), o que é um claro indicador que estavam sempre ocupados a trabalhar e a suar pelo bem comum. Ou seja, e seguindo uma teoria que já vi enunciada antes, os Estrunfes eram claramente comunistas.

Inteligentemente, Peyo e Granja acharam que uma série animada com bonecos vermelhos e barbudos a dividir irmãmente os frutos do trabalho comunitário seria facilmente detectada pela censura televisiva de então. Deste modo, os Estrunfes eram azuis para não dar muita bandeira porque, apesar de tudo, ainda estávamos em plena guerra fria e uma propaganda tão evidente à máquina de leste seria certamente mal encarada por algumas facções da sociedade ocidental. Mas a mensagem está lá na mesma. E terá sido por mero acaso que apenas o Papá Estrunfe (que, corriqueiramente, se pode considerar o guia de toda a comunidade) tinha barba e vestia um chapéu e calças vermelhas? Todos os outros vestiam de branco. Não me parece coisa pouca.

Mas a nova táctica não se resumia a desenhos animados. Por exemplo, n´Os Soldados da Fortuna, a vertente marxista-leninista é menos visível, mas está lá. Esta série provou-nos que quatro veteranos de guerra, acusados de um crime que não cometeram, podem sempre refazer a sua vida ajudando os outros, a comunidade. E, como se não bastasse, faziam o bem do melhor modo possível. Ajudavam sempre pessoas humildes acossadas por um homem de negócios sem escrúpulos que queria usar a terra deles para ali desenvolver uma qualquer actividade monopolista. Os Soldados da Fortuna trabalhavam de graça e, aparentemente, estavam sempre em todo o lado, desde que existissem problemas de exploração por parte do patronato. Ah, e nunca, mas mesmo nunca, ninguém se aleijava. Às vezes havia tiros, é certo, mas estes acertavam sempre na arma do mau ou nos pneu dos carros que fugiam com os lucros do trabalho da massa operária. Os carros que capotavam só explodiam depois de todos os seus ocupantes terem fugido para bem longe e, atordoados, serem capturados pelos Soldados.

Aliás, a série foi ainda pioneira na defesa de outras “revoluções” que a Esquerda sempre reivindicou. Por exemplo, ficamos a saber que os planos dão sempre certo (numa clara promoção dos Planos Quinquenais de Lenine), uma vez que o Hannibal Smith exultava, em todos os episódios, a eficácia dos mesmos na propagação do bem e erradicação do mal. A série também nos ensinou que não havia mal nenhum em drogar/embebedar (numa clara alusão a uma despenalização das drogas) outra pessoa para que ela fizesse aquilo que nós quiséssemos (por acaso, era só andar de avião, mas...). Por outro lado, a série procurava também integrar a comunidade homossexual (o Boy George apareceu num episódio) e é graças a esta série que, ainda hoje, muitos de nós torcem pelo B.A. no Rocky III (pugnando-se assim contra os ideais racistas).

Os exemplos são mais que muitos, mas, neste campo, pode-se ainda destacar o trabalho de propaganda desenvolvido durante vários anos pela série O Justiceiro. Esta série procurou quebrar com uma série de estereótipos que as ideologias seguidas por Vasco Granja queriam erradicar de vez. Tal como n’Os Soldados da Fortuna, n’O Justiceiro havia um clara mensagem de combate ao racismo. Em que medida? Nada mais simples. O K.I.T.T. bom era completamente preto e o K.I.T.T. mau era metade branco/metade preto (sim, havia um K.I.T.T. mau e chamava-se K.A.R.R.), ou seja, caía assim por terra a assunção secular de que o preto é mau e o branco é bom (preconceito perpetuado pelos milhões de filmes de ninjas que nós tanto adorávamos). Tá bem, é certo que no período pré-O Justiceiro, já o Zorro e o Batman vestiam de preto, o Darth Vader, apesar de preto, tinha um exército de semelhantes brancos, e o Shaft era preto, mas, mesmo assim, nenhuma série ou filme conseguiu lutar tanto, e durante tanto tempo, contra este preconceito medieval. De realçar que o K.A.R.R só não era completamente branco porque, aconselham os especialistas, o quebrar de um estereótipo deve ser um processo faseado e não feito à bruta, sob pena do preconceito em causa sofrer uma viragem não desejada. Porém, a propagação de pombos por tudo quanto é lado (normalmente, estes ratos alados são de cor azul-escura ou cinza-xunga) deitou por terra todo um trabalho real nesta área, e a cor preta (ou escura) voltou a ser sinal de maldade (ainda por cima, agora com asas e uma visão periférica que parece não vislumbrar cabeças humanas!).

Outra mensagem que O Justiceiro procurou passar para a sociedade foi no campo da integração social daqueles indivíduos que são obrigados (pela máquina capitalista que os explora) a adoptar comportamentos criminosos. Em todos os episódios, sempre que o Michael Knight estacionava o K.I.T.T. e ia fazer qualquer coisa (permanentes, compras de cabedal, etc.), um gatuno abeirava-se do célebre automóvel e tentava assaltá-lo. E o que o K.I.T.T. fazia? Em vez de o prender e hipotecar todo o futuro do larápio (clara crítica ao sistema prisional das democracias ocidentais), optava por um discurso jocoso e irónico que, não raras vezes, reencaminhava o jovem para uma vida dentro dos padrões da legalidade. Mesmo que a eloquência e capacidade argumentativa do K.I.T.T. não funcionassem, um simples entalar de braço no vidro da porta era o suficiente para que o indivíduo em questão não mais voltasse a cair nas tentações do mundo do crime. Já agora, também nesta série, o mal combatido assumia sempre a figura de um homem de negócios que, no caso, queria roubar um chip qualquer (ou um laser) para governar o mundo (ou tornar Cuba numa estância turística tipo Havai).

Em suma, ao invés de termos desenhos animados que, até Vasco Granja os explicar, ninguém tinha percebido serem parte de uma campanha marxista, passámos a ter séries ocidentais com mensagens políticas bastante claras. Utilizando o Lecas como mera marioneta, VG pode ter saído de cena, mas o seu legado continuou ainda com maior pujança e não tenho dúvida que os frutos do seu trabalho de bastidores irão ser visíveis quando a minha geração chegar ao poder.

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13 de abril de 2004

The Wonder Years

Ter sido puto nos anos 80 é uma dádiva a que, estranhamente, alguns indivíduos dão pouco valor. Os comportamentos desviantes eram quase nulos e, por conseguinte, os intelectuais não se debatiam sobre as más influências que a televisão ou a moda podiam representar para a criançada. Se calhar porque, pura e simplesmente, não existia televisão e muito menos moda (pelo menos, semelhante aos parâmetros actuais) Mesmo assim, ou por causa disso, a década de 80 é o exemplo paradigmático de como tudo deve ser. Se não acreditam, leiam-me com atenção.










Logo para começar, nas madrugadas televisivas, em vez de um TV Shop, em que pessoas comem cremes depilatórios, em vez do Walker, o Ranger do Texas, a fazer flexões com um aparelho semelhante a uma máquina de tortura medieval (nada se perde, tudo se transforma), ou em vez de nos impingirem frigideiras específicas para todos os tipos de comida existente, tínhamos um “piiiiiiiiiiii” ininterrupto que, acreditem ou não, era bem mais benéfico para a actividade cerebral dos telespectadores que o conteúdo do “enche-madrugadas” actual. Aliás, aí podíamos também ver as horas (sempre certas!) e, uma horinha antes da emissão abrir, ouvir música dos Resistência. E mesmo antes da emissão terminar, podíamos ouvir a versão instrumental d'A Portuguesa e treinar a letra que fomos aprendendo com os jogos da selecção (só não sabíamos o que queria dizer "egrégios").








Depois tínhamos o Euro Festival da Canção e os Jogos sem Fronteiras, que eram, para a população portuguesa, o equivalente aos Jogos Olímpicos ou ao Campeonato do Mundo (por arrasto, o Eládio Clímaco era o Gabriel Alves da época). Aquilo era mesmo levado a sério! E, caraças! Não é que vestir um fato de lycra e correr com uma bacia cheia de água até encher um pote gigantesco primeiro que os outros, podia ser mesmo divertido? E mais: o Manuel Luís Goucha ainda era a Filipa Vacondeus de então (e tinha bigode...o Manel, claro), o Herman ainda tinha piada, o grande animador televisivo era o Luís Pereira de Sousa (um gajo que estava sempre bronzeado e sorridente), e o João Loureiro dava-nos músicas bem mais agradáveis (Dá-me um ireaaaaalll...imaginááárioooo....) que agora.

Por outro lado, as histórias infantis davam-nos exemplos de vida muito mais profícuos. Por exemplo, todos crescemos com a assunção que se uma pessoa fosse um anão e trabalhasse vinte horas por dia numa mina, ainda poderia sair da mesma a assobiar e feliz da vida (ok, havia um que não, mas aquilo era mesmo mau feitio). Ou seja, em vez de se falar em exploração laboral, nós víamos aquilo como integração social dos menos afortunados. As nossas mentes ainda não estavam poluídas com a dura realidade da vida. Por exemplo, quando nos liam a Cinderela, não pensávamos automaticamente em necrofilia, e que o príncipe era um depravado sexual que beijava pessoas mortas. O Peter Pan e a Terra do Nunca não estavam ainda associados ao Michael Jackson, ainda não existiam anedotas (muito menos filmes) porno sobre o Capuchinho Vermelho, e o Calimero e a Abelha Maia ainda não haviam enveredado por uma prática constante e permanente da sodomia.

E nos anos 80, toda a gente queria ser um ninja, e não o Figo. O ninja branco claro, porque o ninja preto era mau e perdia sempre (embora as nossas mães nos quisessem convencer que o preto também era giro, nós não caímos nessa do “branco suja-se mais”). No seguimento, as Tartarugas Ninja conquistaram o coração de toda a gente. Tá bem que o seu guia espiritual era uma ratazana velha de robe, mas ainda assim foram um exemplo para toda uma geração. Aprendemos que comer pizza a toda a hora não faz mal, e que pintar a tecto da capela Cistina e combater o crime não são actividades incompatíveis. O Tunning era ainda uma patologia pouco visível. Resumia-se a meia dúzia de ineptos que colocavam um autocolante, que se tornaria famoso (a cara de uma rapariga e os seus cabelos compridos), no vidro de trás e a umas luzes parecidas com as que o K.I.T.T. tinha à frente (aquele feixe de luz, mais ou menos entre os faróis, que ia da esquerda para a direita). O descalabro começou em meados dos anos 90 com a vulgarização do CD, que, como sabem, passou a ser presença habitual nos retrovisores de muito boa gente (se for um CD normal, ainda vá que não vá, mas desde quando é que pendurar um CD-RW da TDK no espelho é fixe?).

Até prova em contrário, foi também nos anos 80 que se inventaram (ou pelo menos generalizaram) aqueles Kispos que davam para tirar as mangas. O conceito é simples: sabem aquele sensação horrível de estar insuportavelmente quente nos braços e frio no tronco? (Não? Pois...) Seja como for, com estes Kispos o problema foi facilmente resolvido, e agora bastava ao utilizador retirar as mangas do agasalho (através de um funcional éclair ou mesmo de um viciante adesivo de velcro). Os Kispos sem mangas abriram ainda o caminho para outras indumentárias do género, como as T-Shirts de gola alta ou os calções de lã e algodão.

Por falar em Kispos, outro clássico da “década dos sonhos” foi o anti-fogo. Nunca tive a sorte de ter um, mas não contesto a utilidade do produto. Esteticamente perfeito (todo preto com uma parte de lã no colarinho), o anti-fogo desempenhava uma dupla função. Por mais estranho que pareça, além de proteger do frio, o dito casaco, como o próprio nome indica, resistia a qualquer tipo de calor. Deste modo, consagrava os seus donos com uma agradável sensação de segurança, uma vez que era um utilitário de protecção essencial para a anunciada chegada do Armagedão. Infelizmente, esta irrepreensível peça caiu em desuso com o advento dos Kispos Duffy que, sobretudo devido às suas cores berrantes e hipnóticas, atiraram o anti-fogo para um canto.

Posto isto, e ainda no que às vestes diz respeito, há a salientar ainda os botins (ou galochas, como preferirem), as camisolas interiores (térmicas, de preferência) e os collants de lã (sim, até os homens podiam usar collants...). Os botins só existiam em vermelho e azul (pelo menos para os mais novos...alguns pais tinham botins pretos), as camisolas interiores em branco e collants em azul, amarelo e vermelho. Cada vez que me lembro das roupas que se usavam quando eu era puto, desconfio sinceramente se haveria Verão ou mesmo qualquer tipo de sol. De realçar que os pijamas com bolsos também se revelaram bastante prestáveis (sim, deitar-se com coisas nos bolsos era costumeiro), e, já agora, relembre-se que todas as nossas camisolas ou calças tinham aquelas joelheiras ou cotoveleiras remendadas. Ah, as calças eram todas, mas mesmo todas, de bombazine amarela ou vermelha, e não existiam sapatilhas de marca (só F.Netto, Lagartus e Alface's).

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8 de abril de 2004

O Mad Max, esse mentiroso...













Ao que parece as comunidades judaicas um pouco por todo o lado têm-se insurgido contra o último filme do Mad Max (“A Paixão de Cristo”), apoiando-se na tese de que a obra seria anti-semita e pouco precisa em termos históricos, uma vez que os retrata como os principais impulsionadores da morte desumana de Jesus. Ora, basicamente, os judeus sentem-se ofendidos com tamanha difamação orquestrada pelo Mad Max, e não se revêem naqueles rabis sem coração que, no filme, pediram (tipo...bué da vezes!) ao shô Pôncio Pilatos para crucificar Jesus.

Pessoalmente, acho que o filme dá realmente um bocado má impressão dos rabis em particular (também digo-vos já: quem escolhe um nome destes para os padres, tá mesmo a pedi-las!) e dos alucinados judeus em geral. Quem viu o filme sabe do que estou a falar. É quase impossível não querer sovar um judeu depois de ver “A Paixão de Cristo”, da mesma maneira que é quase impossível assistirmos ao “Paciente Inglês” sem desejar arduamente que a personagem do Ralph Fiennes se cale duma vez, ou seja, que morra e o filme acabe!

Deste modo, o que há a concluir é que a dita comunidade não pactua com os desvarios cinematográficos do Sr. Mad Max e não irá permitir que seja passada para o mundo uma imagem negra e impiedosa dos seus consócios. Estranho é que a mesma comunidade ache que um filme do “Guerreiro da Estrada” tem mais impacto na degradação da sua imagem no resto do mundo, do que atirar com três mísseis a um velhote numa cadeira de rodas e congratular-se por isso.

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São dez da noite, porra!













É possível um espaço diário de informação ocupar duas horas? Para a TVI, a resposta assume desde logo a forma de pergunta: Mas existe outra maneira de o fazer? Todos os dias, exactamente três segundos antes das 20 horas, o Jornal Nacional inicia a sua emissão. Logo aqui está uma estratégia de marketing que nunca percebi mas que todos seguem à risca, esmorecendo qualquer tipo de mais valia que uns meros segundos pudessem representar em termos de audiências.

Porém, qualquer afinidade com os seus semelhantes da concorrência, termina exactamente neste ponto. O Jornal Nacional inicia a sua emissão de forma espalhafatosa, como que a deixar antever o que aí vem. A sonoridade do genérico é idêntica à daqueles blocos informativos especiais em que a gente sabe que qualquer coisa importante aconteceu, as letras do rodapé são enormes e o grafismo do mesmo é calamitoso e inquietante (lá está, caraças! Houve mesmo uma desgraça, vamos ver a TVI...).

A primeira notícia é quase sempre do mesmo género. A TVI conseguiu mais um depoimento exclusivo (quem, de entre nós, nunca ouviu “é uma notícia TVI” que atire a primeira pedra) de um jovem casapiano, ou de alguém que se lembra de ter visto uma personalidade (nunca se sabe quem, mas é muito famoso e importante) a falar com outra personalidade (aqui normalmente já se sabe quem) que está detida preventivamente no âmbito do processo casa-pia.(*) O que vai variando são as formas de encobrir a cara e a voz do corajoso jovem (ou observador). O básico “voz-lenta/cara-baça” há muito que caiu em desuso, utilizando-se agora uma série de novas técnicas de câmara bem mais aprazíveis para o telespectador. Um dos melhores é a chamada “troca de papéis”, que consiste no simples facto de entrevistador e entrevistado trocarem de lugar. Assim, o telespectador vê a cara do entrevistador de frente (a ouvir, atento, acenando ocasionalmente com a cabeça), e a do entrevistado de trás. Outro método bastante usado nestes últimos tempos é o da “utilização estratégica de um objecto natural”. Ora, neste caso, e como o próprio nome indica, estamos perante uma daquelas situações em que um arbusto, um ramo de árvore ou mesmo uns ofuscantes raios de sol, encobrem estrategicamente (lá está...) a cara do entrevistado. Aliás, as reportagens modernas do género, e dependendo da criatividade do operador de câmara ou realizador, podem mesmo acumular ambos os métodos, transformando um outrora penoso discurso monocórdico num espectáculo visual relativamente conseguido.

O problema é que, regra geral, os depoimentos diários relacionados com o processo casa-pia terminam passado meia hora, ou seja, são oito e meia e o Jornal Nacional ainda tem hora e meia para encher de informação(?). Habitualmente, os trinta minutos seguintes são preenchidos com guerra (sempre com imagens chocantes que mais ninguém se atreve a mostrar), futebol (com declarações de Zé Mourinho a dizer que bateu mais um recorde do género “há 37 anos que uma equipa portuguesa não tinha 3 cantos seguidos em França”), reportagens sobre romenos a vender os filhos (pode parecer que era uma reportagem de uns romenos a enganar uns jornalistas, mas não.), e, dependendo do dia, com os comentários mal-encarados de MST ou as sugestões literárias de MRS.

São então 21 horas e os telejornais da concorrência já estão a dar a previsão meteorológica para amanhã. Mas na TVI não! Ainda há muitas reportagens para passar. Por exemplo, a festa dos gémeos em Castelo de Vide, que reúne uma série de gémeos num jantar anual, e que é alvo de uma intervenção em directo do local e tudo. Normalmente, o tipo de perguntas que se fazem nestes jantares varia entre o “Então, e alguma vez trocaram de namorada/o sem elas/eles saberem?” e o “Então, e têm alguma história engraçada em vos tivessem confundido?”. Ou seja, perde-se uma bela oportunidade de fazer perguntas bem mais interessantes e que inquietam toda a população portuguesa, como seja a óbvia: “Mas que porra, pá! Vocês já são crescidos, e presumo que se vistam sozinhos, porque raio é que estão com roupa igual?”

Depois, passamos para a reportagem sobre a eleição da Miss Idosa de Vilar Formoso, com uma ampla reportagem sobre a vencedora e os bastidores do espectáculo, seguida de entrevista exclusiva com a vencedora, e onde a pergunta “você no seu tempo deve ter partido muitos corações, não?” parece ser obrigatória por decreto. Logo a seguir, uma reportagem sobre uma ou duas pessoas que fizeram a operação para colocar a banda gástrica e, mais tarde, uma reportagem sobre um vampiro que estudou no Liceu Francês. Esta parte do Jornal Nacional termina com o Avelino Ferreira Torres (presidente da Câmara Municipal de Marco de Canavezes) a disputar o título de maior anormal com a Manuel Moura Guedes. Estranhamente, o AFT dirige-se a MMG como doutora, mas perde por KO técnico no preciso momento em que a Manela abre a boca.

O tempo vai passando, e o processo informativo mantêm-se deveras dinâmico. Logo a seguir, dá uma reportagem sobre um carro em contramão numa auto-estrada do norte, depois uma casa alentejana assombrada por fantasmas, uma sobre um qualquer fruto enorme (normalmente melancias) ou um animal com membros a mais (quase sempre animais de quinta), seguida por uma excelente peça acerca de mais um recorde do Guiness que se bateu em Portugal (a temática dos mesmos vai variando entre o maior doce e a cidade com mais rotundas), terminado em glória com mais um precioso trabalho jornalístico sobre divorciados com mais de 35 anos que pagam 30 euros para irem jantar com outras pessoas na mesma situação. Ocasionalmente, o Jornal Nacional é interrompido porque vai haver uma explosão controlada de uma mochila na linha verde (de longe, a mais suspeita).

E pronto são quase dez da noite...mas não esquecer que os intervalos vão sendo entupidos com anúncios a programas da estação. Assim, “Marco na Colina do Sol” (mas aquele pessoal come nu, porra?) ou “O Inspector Max” (é tipo Lassie, mas mais moderno e urbano) vão, entre as peças de bandas gástricas e frutos mutantes, tendo amplo destaque. E Assim se faz televisão.

(*) Já agora quero deixar aqui a minha homenagem ao jornalista que decidiu que dizer “o caso casa-pia” tinha uma fonética horrível e que era melhor mudar para outra coisa. O processo casa-pia soa bem melhor e, além disso até é bastante apropriado, na medida em que o Carlos Cruz, quando foi relacionado com o dito, disse em todos os telejornais que “tudo isto é Kafkiano”.

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