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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Verdades absolutas sobre basicamente tudo.
All great truths begin as blasphemies.
Nem mais. Porra. 

30 de janeiro de 2007

É tudo uma questão de coiso











É a segunda vez que cá venho. Mas a primeira para ser realmente atendido. No caminho para o consultório, há um elevador. Uso-o, claro. Ainda bem que é dos modernos. Nos velhos, aqueles com uma porta de correr em madeira, esqueço-me sempre disso e ainda fico uns bons segundos, dentro do elevador, à espera que aquilo arranque, sem perceber por que raio ainda não arrancámos. Quem diz segundos, diz minutos. E quem diz minutos, diz tardes inteiras. Mas eu tenho que adivinhar que fechar a porta de correr é decisivo no arranque do elevador? E, para além de adivinhar, ainda tenho que me lembrar disso sempre que apanho com um elevador destes? Vá lá que aquele é dos modernos. Entro e já lá está um indivíduo de fato. Deve ter vindo das garagens. Marco o andar para onde vou. Que é o primeiro. Depois de carregar no número um, noto uma certa expressão no indivíduo de fato. Uma expressão de “mas este gajo vai usar o elevador só para subir um andar? Francamente!”. Sim, vou. Você, indivíduo de fato, não sabe se eu posso subir escadas. Se eu não puder subir escadas, é igual se se trata de um andar ou de mil milhões de andares. Processo a expressão dele e, só para provar que não sou de guardar rancores, ao sair, carrego nos botões todos e ainda finjo um coxear absurdamente bem interpretado. Material de Óscar, se fosse num filme. A porta do consultório é daquelas que chia. Logo, está mais que visto que vou ter um monte de gente a olhar para mim quando entrar. Gente a olhar é das coisas mais irritantes que existe. Enerva mais que aquelas pessoas que andam na rua com um monte de moedas a ouvirem-se nos bolsos. Mas ninguém lhes troca aquilo por uma nota? Então usem calças com bolsos mais pequenos e menos largueirões, olha a porra! Tenho que andar a ouvir mealheiros humanos a abanarem-se ao meu lado? Abri a porta devagar, para aquilo chiar menos. Como se fosse um assassino. Caraças, como era bom ter-me lembrado de trazer um facalhão de cozinha ou um cutelo. Só para ver a reacção daquela gente que tanto gosta de olhar para quem aí vem. A verdade é que nunca conheci ninguém que tivesse um cutelo em casa. Os assassinos usam cutelos. Logo, nunca conheci um assassino. Isto da lógica é realmente fascinante. Acaba é por dar vontade de aparar as cartilagens de quem a inventou com uma tesoura de podar. Mas, se exceptuarmos isso, até é jovial. Atravesso a sala de espera do consultório e sento-me num lugar que me permite alcançar as revistas sem ter que me levantar. Assim, evito que esta gente que adora olhar olhe para mim outra vez. Fico suficientemente perto dum casal para lhes ouvir a ligeiríssima discussão. Querelam num tom calmo, mas nem por isso menos assanhado. Noto isso pela forma como rangem os dentes. Já com uma Nova Gente no colo, oiço o elemento feminino do casal. Mas eu sabia lá que os enchidos caíam mal à tua mãe, Vasco? (disse ela) Não são os enchidos, é a farinheira. Morcelas ela come. E de chouriço não gosta muito, mas não lhe cai mal. É só a farinheira. (disse ele) Ficaram-se por ali. Mas o assunto claramente não ficou. Fito a capa da Nova Gente. Serenella Andrade. A impressão de que seria a Nova Gente a ilustrar a sua primeira página com uma moça descascada e em idade parideira invade-me a mente e passo logo para lá. Para a primeira página. Cá está, é mesmo a Nova Gente que faz isso. A moça em questão diz que é inglesa e sonha em ser actriz ou apresentadora de televisão. Tem uma espécie de top transparente em rede e tons de camuflado e com uns guizos. Um bocado confuso. Tenho que desfocar o olhar para lhe apreciar as formas. Simpáticas. Mas desfocar o olhar ainda cansa. Preciso de coisas mais objectivas. Deixa cá ver as outras páginas. Nada de jeito. O Rod Stewart em tronco nu num iate e um Príncipe Alberto do Mónaco a dizer que o filho da emigrante subsariana não deve ser dele. E eis que me vejo chegado à reportagem sobre a Serenella Andrade. Que, fiquei a saber logo ali, tem a família mais feia a já ter marcado presença numa revista. Um marido, dois filhos e uma filha. Diz a revista, que eu nem consegui distinguir géneros, nem funções. Há mais quatro pessoas na sala de espera do consultório. Uma mãe com um filho pequeno. Quando olhei para eles, a mãe estava a lamber um dedo e logo tentou tirar um bocado de chocolate seco da cara do filho. Há coisas que só com cuspo, realmente. E a casa de banho do consultório ainda era longe. Um bom par de metros ou coisa que a valha. Os outros são, também eles, uma mãe e um filho. Mas este filho já é grandinho. Está a brincar com o telemóvel. Está naquela idade em que estão sempre maldispostos. Treze, catorze anos. Aquela altura em que ser visto em público com os pais é a melhor coisa do mundo. Faz questão de ter som nas teclas, este púbere enjoado. Questiono-me. Haverá homicídio mais em legítima defesa que isto? Alguém me condenará, até moralmente, se eu atirar a mesa onde estão as Nova Gente contra a cara desta criatura? Distraio-me e fico com o pasmo por momentos. Lembro-me que nunca paguei uma multa por não ter rebobinado as cassetes de vídeo. Isto é profundamente meritório. Elemento biográfico digno de figurar num Curriculum Vitae de craveira mundial como é o meu. Os gajos do videoclube até são malta para me dar um certificado ou pôr um carimbo. De certeza que mantêm registos destas coisas. Não faz sentido que não tenham. Não sei é o meu número de sócio de cor. Nem sei do cartão. Será que basta o nome? Ou aquilo já fechou? Ainda se alugam cassetes de vídeo sequer? Saio do pasmo porque toca o telemóvel do elemento masculino do casal. Percebi que estive este tempo todo com a Nova Gente aberta na primeira página, onde está a tal rapariga britânica de vestes apertadas, transparentes, rendilhadas, camufladas e com guizos. Nem sei se alguém reparou. Giro era eu agora ir à casa de banho com a revista. Será que se pode levar a revista para a casa de banho? Será que se eu me deslocar na direcção da casa de banho com a Nova Gente debaixo do braço, alguém me vai dizer que não posso? Bem, fica como um dos grandes mistérios da vida. O casal que discute interrompe-me mais um pensamento extraordinário. Era a minha mãe. Ainda está mal do estômago. (disse ele) Telefonou-te para te dizer que está na mesma? (estranhou ela) Que queres que te diga? É da farinheira. (isto foi ele que disse) Se não podia comer, não comesse, não é? Não viu logo que era farinheira? Por amor de Deus, Vasco. (agora foi ela) Ela não distingue farinheiras de morcelas. Quando fores operada às cataratas quero ver se consegues. (partiu dele, este desafio) Pois, pelos vistos as coisas devem passar a ter o mesmo sabor e tudo. (lá resmungou ela, já muito entre dentes) A recepcionista do consultório chama-me. Sou eu. Ganhei a esta gente e vou ser atendido primeiro. Faço um ar triunfante quanto atravesso a sala de espera. Pode entrar. O Doutor está à sua espera. (sorriu-me a recepcionista) É feia. Não sorri de volta. Não quero cá psicopatas a olhar para mim porque pensam que têm hipótese. Já me basta aquela gente que olha porque a porta chiou. Dirijo-me ao consultório propriamente dito. Reparo que recepcionista feia se referiu ao dentista como o doutor. Um homem, portanto. Mau presságio. Preferia que fosse uma senhora. Mais sensível e, enfim, essencialmente sem mãos de homem. Prefiro que quem me cuida dos dentes não consiga partir um frango com as mãos e peça sempre ajuda para abrir frascos. Entro e, olha, o indivíduo de fato que estava no elevador. Está cá dentro. Mas agora está de bata. Se calhar devia-me ter logo arrependido de não ter sido muito simpático para ele no elevador. Mas achei melhor deitar-lhe um olhar de tal forma eloquente que ele percebeu perfeitamente que se me aleijasse um bocadinho que fosse por despeito, eu arrancava-lhe a mão à dentada. Aliás, não lhe lancei olhar expressivo nenhum. Disse-lhe.

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27 de janeiro de 2007

Factos da vida #3










A linha que separa o romantismo da depravação é muito ténue. Atente-se no exemplo prático. Se dissermos que a nossa namorada é uma bonequinha, as pessoas sorriem e chamam-nos românticos. Junte-se “insuflável” à equação e já somos depravados.

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18 de janeiro de 2007

Outra vez aquilo do Português de Sempre




Já é então conhecida a dezena de nomes de onde vai sair o Maior Português de Sempre. De fora, comprovando que isto de não ter um grupo de pressão é a morte do artista, ficou o inventor da maior harmonia que o mundo já testemunhou, os já anterior e muito justamente vangloriados jaquinzinhos com arroz de tomate. O facto de não se saber quem raio inventou tal iguaria também pode ter pesado na altura de o nomear como Melhor Português de Sempre. Percebo que as pessoas, quando se trata de nomear, precisem de um nome. As pessoas precisam destas facilidades. Por isso, e só por isso, não me escandaliza que o pioneiro na arte de juntar jaquinzinhos a arroz de tomate tenha ficado arredado da luta. Apartada que foi a minha primeira preferência, passo para o meu segundo favorito. Aquele que, objectivamente, mais fez e, sobretudo isso, continua a fazer pelos portugueses. Por este prisma, apenas uma leitura é válida. Leve-se isto realmente a sério e, pura e simplesmente, apure-se quem nos deu mais feriados. Ora, seguindo uma ordem essencialmente genial dos dez finalistas, comece-se por D. Afonso Henriques. Ao foder Espanha, Afonso tornou-se o pai da pátria portuguesa. Supõe-se que Espanha será a mãe. Não é lá muito claro, mas deve ser isso. A irmã de Afonso, Sancha Henriques, é a tia da pátria portuguesa. O filho dela será o primo de Portugal e por aí fora. Isso vale o que vale. É verdade que, se não existisse país, não existiam feriados. É a sua, de Afonso, grande virtude, mas não chega. A sede por feriados cega-nos e não nos permite fazer essas desconstruções lógicas. É tudo muito simples e directo. Não há feriados? Então adeusinho, obrigadinho, saudinha, mas isto não é concurso para o teu bico, Afonso. Passe-se desde já para Álvaro Cunhal. Ajudou a que o vinte e cinco de Abril fosse um feriado e, uns belos anos antes, alguns camaradas proletários conseguiram sacar o primeiro de Maio. Com a boa vontade que me caracteriza, e juntando as duas semi-participações, vou considerar que nos deu um feriado. Nada mau, fossem todos assim, Álvaro. Porque a vida é cheia de ironias, segue-se-lhe o Salazar. Conquanto o já supradito vinte e cinco de Abril tenha, enfim, também alguma coisa de Salazar, o que há a reter da acção deste indivíduo é que, em quarenta anos a mandar vir, nem um feriado impulsionou por vontade própria. E isso é, numa palavra, francamente fodido. Foi um homem ruim e, li algures, ou sonhei, é-me igual e em termos de factualidade a segunda hipótese até é mais factível que a que lhe precede, que o senhor chegou a querer transformar o sábado numa segunda-feira. Era um indivíduo belzebútico. O próximo atleta dá pelo nome de Aristides de Sousa Mendes. Consta que o grande feito deste senhor foi passar vistos a Judeus. A Lista de Schindler era para ser sobre ele, mas “Mendes’s List” soava mal e isto, ao fim e ao cabo, é tudo fonética. E feriados, Aristides? Nem vê-los. A culpa não será só dele. O mínimo que os Judeus podiam ter feito era dar-nos um dos seus feriados. Mas já se sabe como essa gente é só unhas-de-fome e não dá nada a ninguém. Fernando Pessoa é o nome que se segue. Parece que se ajeitava com as rimas e tinha um bigode e amigos imaginários, com apelidos e tudo. A estátua dele tem a pena cruzada à homenzinho, é certo, mas aquilo é posição para a deixar dormente em pouco tempo. Não é sinal de grande inteligência. Toda a gente sabe que convém ir trocando, e ele, bem vistas as coisas, acaba por ter sempre a mesma perna cruzada. Mas, mais importante que tudo isso, Pessoa, ler até distrai, amigo, mas feriados dá para ir à praia a meio da semana. Lamento, Nando. Siga-se para o Infante D. Henrique, o mentor dos descobrimentos. Há quem diga que foi o pioneiro dessa beleza que é a globalização. A verdade é que não passava dum beato com um chapéu ridículo que mandava os outros andar de barco. Tinha medo que se pelava do escorbuto, por isso está explicado o facto de tresandar sempre a laranjas. Não nos deu feriados e andar de barco enjoa. Na melhor das hipóteses, é um concorrente chocho. Aproxima-se outro rei. Desta vez, o D. João II. Nos filmes, a sequela só excepcionalmente vence o original e com os reis deve ser igual. Diz que esta sequela do D. João era o príncipe perfeito e é lembrado por ter deixado a sua rubrica no tratado de Tordesilhas. Com isso, garantiu-nos o Brasil. A parte positiva disto é que, se não tivéssemos ficado com o Brasil naquela altura, hoje ninguém se entendia quando fosse à Telepizza. Porque, apesar de tudo, português do Brasil ainda se compreende melhor que castelhano, obrigado, João II. Mas, ainda assim, não é um feriado. E eu até sei dizer queijo e fiambre em castelhano. Jamón e queso. E eles devem perceber “mucha cebolla” e “mucho atuno, gracias”. Logo, não me serviste de muito. E eis que se chega ao Camões. Os Lusíadas deram-nos algum feriado? Não. Embora o dez de Junho, data da morte de Camões, seja feriado. Neste sentido, é complicado não encarar o “bater as botas” como o maior feito de Camões, relegando “Os Lusíadas” para um patamar de absurda secundariedade. Camões, não é nada de pessoal, mas, caraças, em vida, dás-nos um livro. E dos grossos, de poesias. Quando morres, dás-nos um feriado. É suposto valorizarmos o quê, Luís Vaz? Até tu compreendes, vá. Aproximemo-nos do Marquês de Pombal. É perto da estátua dele que se festejam as vitórias, portanto, deve ter sido uma figura importante na História do futebol português. Mas não gerou feriados. E acho que usava capachinho. Finalmente, o décimo sujeito. O Vasco da Gama. Descobriu o caminho marítimo para a Índia. Que, pasme-se, parece que era pelo mar. Ele há coisas que não lembram ao diabo, realmente. Não deu feriados a ninguém e o caril faz-me dor de cabeça. Estar nos “dez mais” já é exagero suficiente.

Por conseguinte, o que sobressai desta inatacável decomposição é o facto de nenhum dos dez finalistas se ter destacado grande coisa nessa arte de nos presentear com feriados. E a revolta é o único sentimento válido quando se torna óbvio que, fora dos nomeados, ficou um indivíduo que, em termos de feriados, arrasa com os dez finalistas todos juntos e multiplicados por um número não maior que três. Exactamente! Jesus! Português, natural de Belém, terra dos pastéis, e Messias de profissão, parece que passava as férias de verão na Nazaré. Só assim se percebe que muitas vezes se refiram a ele como “Jesus de Nazaré”. Eu lembro-me de chamarem Chico da Caparica a um amigo do meu pai, e era porque ele passava as férias na Costa. Pois bem, Jesus, nascido em Belém, veraneante na Nazaré, era filho de Maria e o seu padrasto respondia pelo nome de José. Mais nacional que isto é complicado e, à luz dos factos, Jesus foi inequivocamente o melhor português de sempre. Repare-se só nesta categoria a arranjar feriados. Deixa-nos um feriado porque nasceu. Deixa-nos um feriado porque o mataram na cruz. Deixa-nos mais um feriado porque faltam não sei quantos dias para essa altura em que o crucificaram. Mas há mais! Há mais. Para além disso, Jesus conseguiu ainda, e se isto não é revelador de grandeza, eu não sei o que será, fomentar alguns feriados que nunca, mas nunca mesmo, calham ao fim-de-semana. Isto é absolutamente magnânimo! Isto sim, capta a essência que se exige a um feriado. O Carnaval é sempre a uma terça e a sexta-feira santa é sempre num dia de semana que agora não me lembra. Mas sei que não é ao fim-de-semana. Há um outro feriado, por causa do pai biológico de Jesus, que é sempre a uma quinta-feira algures no Verão. Sim, porque, a juntar aos feriados de Jesus, ainda há uma série de feriados que devemos agradecer aos seus amigos e família. O quinze de Agosto e o oito de Dezembro, por causa da mãe de Jesus, e o primeiro de Novembro, por causa dos seus amigos de sempre, os santos. Isto é que é ser grande. Isto é que ser melhor. A única coisa que se lhe pode apontar, porque Jesus, como todos os grandes e melhores também teve falhas, foi o de ter ressuscitado a um domingo. Agora a Páscoa é sempre nesse dia e é um feriado desperdiçado. É pena. E com uma segunda-feira ali tão perto, Jesus. Tão perto, chiça.

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16 de janeiro de 2007

Factos da vida #2









Quem diz que nunca é demasiado tarde para aprender, nunca teve um vizinho a dar os primeiros toques de acordeão às cinco da manhã.

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14 de janeiro de 2007

Aquilo do Português de Sempre




E diz que é já hoje que se ficam a conhecer os dez finalistas desse animado certame que é a eleição d’O Maior Português de Sempre. Maior ou melhor, sei lá. Por princípio, deve ganhar um indivíduo que já tenha morrido. Quem já morreu sabe sempre mais do quem cá fica. As pinturas valem mais, os livros, os filmes e as cantigas são sempre melhores. É lixado, mas é assim que funciona desde há muito. Por exemplo, se eu fizesse uma directa e escrevesse “Os Lusíadas”, aposto que o maior elogio que me faziam era um “olha, que giro, isto rima sempre linha sim, linha não”. E, no máximo dos máximos, era só isto. Mas se for escrito por um gajo que já morreu, ah, aí já toda a gente diz que é muito bom e que é um marco inigualável na nossa literatura e, óbvia, clara e objectivamente, também na do mundo. Pois bem, Camões, ficas a saber que, independentemente do quão bom, grande ou melhor tenhas sido enquanto português, eu consigo, sem grande esforço de qualquer espécie, encontrar dez coisas em que sou bem melhor que tu. E o mesmo se aplica a todos os nomeados dessa corrida do melhor português de sempre. Ou maior, seja lá o que for. E, portanto, tu, Camões, és garantidamente pior que eu nos seguintes aspectos: jogar à bola; ter um nome mais lixado para se fazerem trocadilhos fáceis com o equivalente carroceiro da palavra testículos; fazer torradas quando a manteiga está mole; acertar as horas do vídeo; fazer contas de mais sem vírgulas; conseguir convencer pessoas que é “Diabo da Tanzânia” que se diz e não “Diabo da Tasmânia”; saber de cor todos os jogos do Sporting desde 89/90 e, sobretudo isso, em que lances fomos roubados; sacar prémios bons em quermesses e nunca peças de cerâmica ou sapatos; transformar, com uma celeridade absurda para um ser humano, o chefe dos transformers bons em camião e vice-versa; e, finalmente, cheirar, para ver se está estragado, desde que não se trate de produtos lácteos ou pudins. E digo só estas dez coisas, não porque sejam as únicas coisas, mas porque penso ser número suficiente para demonstrar que nada devo ao Camões em termos de tudo. Além de que, a eleger alguém, dificilmente faria recair a minha preferência num gajo que escreveu umas folhas ou, por outra, um fulano que mandou barcos ir ver se havia coisas lá além ao fundo. Eu escolhia alguém que tivesse feito realmente a diferença. Contextualizo a questão. Por exemplo, quando falo com estrangeiros, costumo dizer que são duas as principais características do nosso país. Uma delas é que temos muitas pessoas, quase sempre homens, a quem faltam dedos das mãos. Este aspecto, de natureza fortemente cultural e de acentuado conteúdo antropológico, descende do facto de cá, em Portugal, gostarmos muito de pirotecnia de festas de freguesia em honra de uma santa. Quando o assunto é chegar um isqueiro a uma cana que tem pólvora agarrada, os dedos passam logo para segundo plano. Interessa é ver a cana a voar e a fazer barulho. É uma coisa cá nossa, pronto. Por seu turno, a outra característica, embora sendo mais um feito que propriamente uma característica, atulha-me ainda mais de orgulho. É que foi cá que se juntou o arroz de tomate aos jaquinzinhos e que, com esse gesto à partida tão prosaico e vazio de significado, se criou a maior harmonia que o mundo já conheceu e alguma vez conhecerá. Isto também merece um pequeno apontamento prévio de contextualização. Não sei como é com os comuns mortais, mas comigo a refeição é sobretudo um momento de equidades e harmonias. Não sou lambareiro, pelo menos não no sentido mais desarrazoado do termo. Não se trata disso. Em qualquer altura, troco a lambarice pela harmonia processual. E, por harmonia processual, não me refiro a haute cuisine ou fantochadas dessas que redundam sempre em “eh pá, ainda comia ali uma bifana nas roulottes do Campo Grande”. A questão é que, digamos, num prato de arroz com bife, não quero mais deste último que do primeiro ou o inverso. Quero, isso sim, que cada garfada de arroz leve também um bom naco de bife. Não quero que sobre arroz para comer sem nada. Ou carne, também para comer sem nada. Assim, optimiza-se a harmonia que em princípio o prato possuirá. Com os jaquinzinhos, esta questão da simetria sempre foi ainda mais premente. Porque um jaquinzinho não passa de carapau raquítico e ressequido que, e embora veja o seu nível gastronómico subir a pique se a este cenário adicionarmos a variante molho de escabeche, nunca se apresentou, convenhamos, como algo que, por si só, fosse alguma vez capaz de fazer história ou deixar marcas profundas. É, enfim, bom, mas não deslumbrava. Em situação idêntica tínhamos o arroz de tomate. Bom, claro, mas faltava-lhe algo. E, tenha-se sempre a certeza disto, até porque está muito e bem documentado, é extremamente rara a ocasião em que duas entidades banais ou, com alguma boa vontade, assim-assim ou, se se preferir, porrerinhas ou que até fazem o jeito, se unem para dar origem a uma simbiose que roça a perfeição de tal modo que até deixa ferida. Se levarmos em consideração aquilo que são sozinhos, ou, para o efeito, aquilo que são com outras hipóteses, e contrapusermos esse considerando com aquilo que são em conjunto, está mais que visto que jaquinzinhos com arroz de tomate é seguramente a maior combinação, não só alimentar mas de tudo o que existe, de sempre. Não é que seja o melhor prato de sempre, não é disso que se trata. É, isso sim, a melhor combinação alimentar de sempre. São coisas distintas. Trata-se do emparelhamento que mais benefícios trouxe a todos os envolvidos. Comer uma garfada de arroz de tomate sem um jaquinzinho devia ser pecado. Tal como comer um jaquinzinho sem uma garfada de arroz de tomate. E foi um português que inventou. É por isso que seria sempre ele, ou ela, até porque é de cozinhas que se trata, a receber o meu voto. Também lhe ganho, está claro, num mínimo de dez coisas, mas quem se lembrou de juntar jaquinzinhos ao arroz de tomate joga noutro campeonato, Camões. E tu sabes disso. Comer jaquinzinhos com arroz de tomate banaliza "Os Lusíadas" de tal forma que até parece mal.

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