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Olhe que não, shô Doutor! Olhe que não...

Verdades absolutas sobre basicamente tudo.
All great truths begin as blasphemies.
Nem mais. Porra. 

12 de abril de 2006

Incómodos da Modernidade (III): No cinema II












Já há muito que se percebeu que, perante uma sala cheia, ou bem composta, o número de braços das cadeiras nas salas de cinema poderá, e é quase sempre, bem menor que o número de braços das pessoas que as vão ocupar. É um facto da vida. Há que viver com ele. É essencialmente por isso que se criou, nas salas de cinema, e entre desconhecidos, um acordo tácito para usufruto do finito apoio braçal que as cadeiras proporcionam. Já se sabe que não chega para todos, durante todo o filme. É preciso perceber que a outra pessoa também quer pousar o braço durante uns minutos. Ter essa atenção. Vivemos em sociedade. Mas há pessoas que acham que é melhor ignorar o facto de partilharmos espaços, bens e serviços. Preferem açambarcar o apoio braçal como se nada fosse. E, durante todo o filme, ignoram as nossas preces e protestos mudos. Só para verem como é insensível esta gente, são até capazes de ignorar o bufar alheio. E bufar, junto de um desconhecido, é a mais conhecida e desesperada forma de desagrado não verbalizado e não fisicamente agressivo perante algo. Ninguém deve, pura e simplesmente, ignorar um bufar alheio. Quando um desconhecido bufa, o mínimo que se exige é que os indivíduos que compõem a envolvente façam uma introspecção crítica, procurando perceber se estão ou não, de alguma forma, a incomodar o indivíduo que protesta. Partindo, claro, do princípio que ninguém bufa por dá cá aquela palha. Quero acreditar que vivemos num mundo em que, quando se bufa, algo de muito grave ou incomodativo está a afectar o emissor. Algo lesa a pessoa que bufa. É nesse mundo que quero viver. Um mundo onde não se bufa à toa.

Eu até percebo que existam tarefas chatas. Tarefas que, dadas as circunstâncias, são mais que hercúleas. Ou, encarando as coisas de um ponto de vista mais biologicista, tarefas que, por exemplo, não fazem parte do código genético masculino. Coisas como acabar o rolo de papel higiénico e trocá-lo por um novo. Ou, se não se vai sair de casa, meter qualquer coisa por cima das cuecas porque pode aparecer alguma visita. Mas não se trata de nada disso. Isto são dois exemplos de tarefas que, ou exigem uma apostasia do código masculino, como no primeiro caso, ou que se estruturam com base em conjecturas e futurologias, como no segundo. Não é isto que se pede. A partilha do apoio braçal nas salas de cinema não é nada de transcendente e que renega a nossa essência. Nem é nada que se baseie em conjecturas. A possibilidade de alguém, pura e simplesmente, não querer, durante uma sessão inteira, ocupar o apoio braçal, nem que seja só durante um bocadinho, é muito diminuta. Para não dizer absurda. Estamos, já se percebeu, a falar de uma questão de respeito por uma comodidade que é suposto ser partilhada e de que todos querem um bocadinho. Toda a gente sabe disto. Só se pede que tenha a delicadeza de ir passando a vez. Não só é uma simpatia social, como também é uma necessidade pessoal. Ficando com o braço sempre apoiado, é provável que se fique com o membro em causa dormente. É imperioso ir trocando de posições. Para bem de todos.

A última vez que me calhou um desses gajos que monopoliza aquele amparo braçal foi precisamente quando fui ver “O Segredo de Brokeback Mountain”. O indivíduo, que já lá estava quando cheguei, ficou do meu lado direito. Em situações normais, escolho um lugar que não implique ficar em cima de um desconhecido, sem qualquer tipo de zona intermédia. Mas, naquele caso, era complicado. Não só a sala estava bastante composta, como a rapariga da lanterninha – demasiado máscula, sendo que o uniforme do cinema, calça, camisa e colete, também não ajudava por aí além – me tinha acompanhado ao lugar e dito, num tom ameaçador, e que revelou o dente mais desvitalizado que alguma vi na vida, “é ali ao lado daquele senhor”. Como não tenho um pingo de personalidade, limitei-me, cabisbaixo, a acatar a ordem.

O gajo tresandava a Drakkar Noir ou Old Spice. Uma daquelas águas-de-colónia tão intensas que quase que ficamos com o sabor daquela porcaria na boca. É sebento. A criatura deve ter ficado a marinar naquela porra um dia inteiro, e, se eu acendesse um fósforo, ardia ali todo até aos sapatos. Ou mocassins. Ou seja lá o que for que esta gente calça. Devia ser um daqueles – sendo que é a primeira e última vez que vou usar a expressão –, “sapato-téni”. Aposto que é mesmo assim, que é mesmo esta a expressão que ele usa quando pergunta na loja por este género de calçado. O que também aposto é que aquela água-de-colónia era qualquer coisa nuclear. Uma espécie de chuva ácida engarrafada e com um anúncio de TV.

Este indivíduo começou por ter o braço instalado no apoio que partilhávamos. Tudo bem, alguém tem que começar. Nada a apontar relativamente ao privilégio inicial. Ele até chegou primeiro. Ele até já lá estava. O problema é que, já os cowboys tinham consumado o seu amor rapioqueiro numa tenda tipo iglu, e aquele gajo ainda tinha o braço por ali, como se o cinema fosse o seu castelo e a cadeira o seu trono. Eis que, não sei quando, mas sei que demasiado tarde, talvez quando um dos cowboys já andava a dançar com camisas do outro como se fossem uma pessoa a sério, o indivíduo retira o braço. E tira-o, não porque achou que era a minha vez, não porque estava cansado e a ficar com o membro todo apanhadinho, mas porque foi tirar um lenço para enxugar as lágrimas. Duvido que tenha sido o filme a provocar o lacrimejar – aposto bem mais na sua água-de-colónia que encostava qualquer gás lacrimogénio a um canto –, mas a verdade é que aquele donzel estava mesmo a mijar dos olhos. Naquela altura, isso pouco me importava e até o filme já há muito que se tornara claramente secundário. Limitei-me a sorrir por dentro e a pensar “já te lixaste, ‘ó lencinho para limpar as lágrimas’, que eu agora, só para chatear, vou ficar com o braço aqui até ao resto do filme. Só para ver se também gostas”.

Enxugadas as lágrimas, este refogado de Old Spice e Drakkar Noir volta a pousar o braço no apoio da cadeira. O problema é que o meu braço, como prometido, ainda lá estava. Mais! Ainda eu estava a preparar o meu braço para o uso exclusivo do equipamento, a ambientar-me à textura, temperatura e forma do sítio, e já aquele pastoril tinha feito regressar o seu tentáculo ao local que tinha estipulado como seu e só seu. Ficou, por isso, em cima do meu braço, esse pobre rebelde que mais não queria que acabar com aquele regime monopolista e déspota. No fundo, marcar uma posição. Pensava eu, quando vi que aquele braço encharcado em água-de-colónia, e que segurava um lenço choramingado, a cair sobre o meu, que aquilo iria demorar pouco tempo. Que acabaria num ápice. Pensava eu que o indivíduo iria perceber, de imediato, que já lá estava matéria viva e, acto contínuo, retiraria o seu braço para que todos pudéssemos continuar a apreciar aquele Tutti Frutti Western como se nada tivesse acontecido. Mas não foi assim. O braço Old Spice resolveu assentar arrais. Parecia estar para ficar. De vez. É já com todo o meu corpo em acentuada contracção, e com a minha mente a passar por uma agonia bárbara, que aquele braço decide, acompanhado de um “oh, desculpe…” num tom de quem parecia ter acabado de pisar o vestido comprido de outra senhora, parar de oprimir o meu. Como é óbvio, assim que o meu braço ficou livre, retirei-o imediatamente e decidi que, naquela sessão de cinema, não mais iria marcar posições ou procurar transmitir princípios e valores. Nem naquela, nem noutra. Resta-me esperar que toda a gente saiba cumprir o acordo tácito para usufruto do apoio braçal nas salas de cinema. Os meus dias de revolução contra os opressores acabaram no instante em que um braço masculino ficou demasiado tempo em cima do meu para se considerar um mero percalço.


Blogger João said...

Já no Festival de Cinema Gay & Lésbico de Lisboa te tinha acontecido o mesmo, não foi?  


Anonymous Dra. Daniela Mann said...

Passei para desejar Boa Páscoa!:)  


Blogger Pedro said...

Não senhoras. O que já me aconteceu no festival de cinema gay e lésbico de Lisboa foi encontrar a Dina no urinol mesmo ao lado do meu. Até trocámos umas palavrinhas sobre o tempo. Estava estranhamente fresquinho para aquela altura do ano, disse-me ela.  


Blogger El Ranys said...

Finalmente vou poder esclarecer uma dúvida que me vem assaltando junto de testemunha privilegiada:
Pedro, a Dina sacudiu a pila ou não?  


Blogger Pedro said...

A minha visão periférica permitiu-me ver uma Dina, de mãos nas ancas, a chocalhar-se com veemência. Portanto, se tivesse que apostar, diria que sim, ela sacudiu. Não sei é o quê.

Mais uma vez, se tivesse que apostar, diria que a cantora sofre de “gravidez psicológica”. Mas com uma pila, em vez de um feto.  


Blogger El Ranys said...

Obrigado, Pedro. Eternamente grato pelo esclarecimento. A Dina nunca me enganou. Sobretudo depois de cantar "Peguei, trinquei e meti-o na cesta..."  


Blogger Pedro said...

El Ranys, é “peguei, trinquei, meti-te na cesta”. Esse pormenor muda tudo. Se estiver interessado em aprofundar o seu conhecimento acerca das verdadeiras motivações dessa cantiga a que os anglo-saxões chamam de “Fresh Water Love”, procure lá mais para baixo, que eu até já dei uns workshops sobre isso.  


Blogger El Ranys said...

Pois é, Pedro, e eu até fui dos que "assistiram", na altura, ao workshop. Por alguma razão reprovei, pelo que voltei para casa sem o certificado.
Claro que, entre "meti-o na cesta" e "meti-te na cesta" há todo um universo de diferenças. A falta da banana é todo um programa.
Mas, agora, interrogo-me: será que o José Cid, no seu famoso hit "como o macaco gosta da banana, eu gosto de ti...da banana..." também nos queria dizer algo? O Pedro já deu algum workshop sobre a matéria?  


Blogger Pedro said...

Traz à baila interessantes questões, Ranys. A Dina esqueceu-se exactamente daquilo que o Cid exaltara uns anos antes. Eu agora podia dizer “talvez um dia me debruce sobre o assunto”, mas acho que, dado o contexto, não é lá muito adequado. Portanto… hã?  


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